Tonhão ‘dentista’


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Grandão. Barulhento. Voz de trovão. Era só começar a noite e Francisco Antônio Alves Rodrigues, o Tonhão, surgia nos fins de semana dos anos 70 na praça Barão repleta, “pilotando” seu Dodge preto — “o Dojão do Tonhão” — equipado com buzina de muitos sons, um lembrando a sirene de viaturas policiais. Osorinho — que, como Tonhão, também se formaria dentista em mais alguns anos — se procurado, talvez conte a peça que aquele seu amigo brincalhão lhe pregou, em certa oportunidade. Jamais abriu mão de seu perfil. Riso fácil e franco, extrovertido, fez amizades duradouras e pacientes odontológicos reconhecidos. Por 27 anos praticou odontologia social para o município. Deste tempo, quinze foram dedicados à UBS do Parque do Horto. Presidiu a APCD (Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas), integrou o Conselho Regional de Odontologia do Estado de São Paulo e mereceu a Comenda Tiradentes, reservada a quem presta relevantes serviços à Odontologia nacional. Religioso, participou da comunidade que construiu a Igreja Presbiteriana Filadélfia, da rua Minas Gerais, em Franca. Foi diácono por 30 anos. Teve 37 anos de feliz casamento com a também odontóloga Marilúcia Nassif Alves Rodrigues. Do enlace, quatro filhos (Gustavo, Carolina, Débora, Maísa), e três netos, Matias, Maitê e Lucca. Com sua mulher, foram determinantes quando eu trouxe o CVV para Franca. Dizia-me, que “se, pelo trabalho dos plantonistas da entidade, apenas uma vida tenha sido salva, valeu muito a pena”. 
 
Em 2014, Tonhão assustou a todos os que o estimavam, quando enfrentou um aneurisma. Seu físico forte, determinação de viver e crença em Deus o recuperaram sem sequelas. Espiritualizou-se. Poeta, deixou vasta produção que a família pensa em publicar. “Verdadeiramente doída, com leve toque de veneno, contrai o coração com força ardida, ou flui do peito traiçoeira, como um aceno, (a saudade!)” são versos dele.
 
Encontramo-nos, ele, eu e minha mulher, dia 15, em supermercado da cidade. Lá estava com seus companheiros do “Santa Custom Moto Club” em mais uma ação social. Foi a última vez que o vimos em vida, já que Deus resolveu levá-lo no dia 18, deixando-nos órfãos de sua alegria; e a Lucinha, sua mulher, sem ter como “envelhecerem juntos, como tinham planejado”. Os que o acompanharam ao Parque Jardim das Oliveiras foram em número impossível de calcular.
 
Este texto não é só meu. É o resumo do pensamento das muitas pessoas com quem conversei para compor, de alguma forma, parte do perfil do homem bom, pai e avô preocupado e amoroso, marido terno e companheiro, cidadão consciente e prestativo, amigo de seus amigos, incapaz de diferenciar o rico do pobre, o branco do negro, do amarelo ou do vermelho; imenso no físico, mas doce como a um bebê de olhos claríssimos que mostram a própria alma.
 
 
Luiz Neto
Jornalista, mestre cerimonialista, editor, tutor e mentor de fala e gesto - luizneto@luiznetocomunicacao.com.br

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