Sesi Chef Franca coloca em destaque os talentos culinários


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Juliana Capriolli, Lígida Macena, Fernanda Matos, Sonia Machiavelli e Ricardo Ziotti
Juliana Capriolli, Lígida Macena, Fernanda Matos, Sonia Machiavelli e Ricardo Ziotti
Se busco as motivações mais remotas que desenvolveram em mim o gosto pela culinária, encontro-as na primeira unidade do Sesi Franca que funcionava então em prédio pequeno da rua Monsenhor Rosa, na praça Nossa Senhora da Conceição, onde há hoje um estacionamento.
 
Levada por amiga de minha mãe, assisti aos oito anos a uma aula onde a professora, de sobrenome Casadei, ensinava a preparar um glacê chamado “real”. Para mim foi uma epifania ver como as claras se transformavam em algo belo como neve, podendo ser viradas para baixo sem se moverem da tigela. “Ponto de picos ou castelos”, ouvi e minha imaginação voou. Encantou-me também a forma como a cobertura era espalhada na superfície do bolo fofinho, mantendo-se firme sobre a massa. A doce capa sequinha, crocante, com gostinho de limão, tornava-se a iguaria que meu paladar vincularia à memória emocional para sempre.
 
Então, quando recebi convite do diretor do Centro de Atividades do Sesi de nossa cidade, Ricardo Alexandre Machado, para participar como jurada do Concurso Sesi Chef, aceitei com alegria. Na semana passada, de terça a sexta-feira, das 18h30 às 22h, vivi experiência enriquecedora, que começou no acolhimento da nutricionista Juliana Capriolli, do orientador de Esportes Ricardo Ziotti, da gerente administrativa Eliana Augusto Biondi, e das funcionárias que foram suporte e apoio para que os candidatos tivessem à mão tudo de que necessitassem na Cozinha Didática. Neste espaço onde acontecem mensalmente cursos para alunos interessados em gastronomia, Raquel Vieira, Lígida Macena e Fernanda Matos se esmeraram na manutenção da ordem sobre pias, bancadas, fornos e fogão. O fotógrafo oficial da casa, Felínio de Souza Freitas, cobriu todos os momentos do evento, e os do GCN, Lucas Lima e William Borges, parte dele. 
 
Com três participantes por noite, e doze concorrentes ao todo, o que se viu na Cozinha Didática foi um espetáculo de criatividade, onde cozinheiros amadores demonstraram que é possível alimentar-se bem, empregando ingredientes de baixo custo aproveitados integralmente, elaborando pratos de apresentação sugestiva, aromas únicos, texturas diferenciadas e bom teor nutritivo. 
 
Os inscritos chegaram de áreas as mais diversas: estudante do curso de Direito da Unesp; funcionária da indústria calçadista; trabalhadores do setor de alimentação; profissional de designer, donos de restaurantes, donas-de casa, professor universitário, aluna de curso de gastronomia da Unifran. Participaram do Sesi Chef 2017 pela ordem: Maria Aparecida Costa, Aluísio Lucena, Natália de Oliveira Galvão, Edilaine Ferreira Costa, Lila Araújo Pimenta da Silva, Eliane Cristina Vitorelli, Rodrigo Vila Seles, Tamires Cristina Mendes, Cláudio Ari Ciacon e Eliana Luiza Dias. 
 
Os dois selecionados nesta fase terão seus nomes conhecidos na próxima semana. Haverá mais uma prova, em setembro, da qual sairá o nome que disputará vaga que poderá levar à finalíssima em São Paulo. Os prêmios incluem dinheiro, um super fogão e a inclusão da receita e seu autor (ou autora) em livro de culinária. 
 
Como toda cozinha- lugar- de- alquimia, a Cozinha Didática do Sesi ofereceu aos olhares de quem acompanhou cada elaboração surpresas que começavam no nome, como no caso do “Escondidinho de banana com bolonhesa de cascas”; perpassavam por iniciativas de aproveitamento máximo de ingredientes, como a “Omelete em cascas”; deixavam no ar muita curiosidade quando a proposta era preparar um “Nhoque de arroz com molho de beterraba”. Ou então associavam-se a muitas interrogações, pois quem haveria de supor que um pedaço de melancia se transformaria num exótico canelone com recheio de ricota, frango desfiado e uvas passas? E o que dizer da expertise com que mãos treinadas sovavam a massa de farinha integral que formataria raviolones a serem servidos com molho de tomates feito ali mesmo, na hora, exalando perfumes que despertavam o sentido ligado ao cheiro dos alimentos apetecíveis? Aroma tão bom quanto o do molho de maracujá que se apurando na panela aguardava as fatias de cabotiá chegarem ao ponto no forno, para acompanharem, ambos, a carne suína assada na panela. A receita de ravióli onde a abóbora entrava como massa e não como recheio tradicional e a de coloridíssimo yakisoba com aproveitamento máximo dos ingredientes chamaram atenção. A cada prato elaborado em 60 cronometrados minutos, era possível atestar que poucas coisas são tão culturais como a comida que se põe na mesa, destinada a alimentar o corpo depois de seduzir os sentidos, pois é pelos olhos e pelas narinas que começamos a comer. Com pontuação de 1 a 10, foram avaliados os seguintes itens: aparência e apresentação, aroma, sabor, textura, criatividade, saudabilidade, uso de partes não convencionais dos alimentos. Serviram como itens para desempate a técnica culinária empregada e a desenvoltura na preparação. 
 
Se toda mesa reflete concepção de mundo, hierarquia de desejos, logística da imaginação, no mesmo prato cabem pimentões tricolores e purê de abóbora; misturam-se de forma irmanada, cenouras, batatas, tomates e brócolis; separam-se em texturas diferentes aquilo que na natureza vem reunido, a banana e sua casca, transformada em criação perfumada, onde o macio e o crocante exibiram-se em perfeito contraste. Tudo muito leve, saudável, belo, a lembrar que desperdício é obscenidade no mundo em que vivemos, no qual tantos passam fome. Cascas de chuchu podem virar recheio, depois de o próprio legume se transformar em salada. As de beterraba e cenoura não precisam ser retiradas para compor o espetacular molho a ser servido quente no inverno e frio no verão. Sobras de arroz são a base de um nhoque levíssimo. Um quarto de melancia pode ser integralmente aproveitado. 
 
Com a segunda edição de seu concurso, o Sesi ofereceu condições para que cozinheiros, amadores ou não, mostrassem o que fazem de melhor, de mais saudável, de mais gratificante ao paladar e de mais econômico ao bolso. O Brasil precisa de iniciativas deste gênero, pois estamos na lista dos cinco países que mais jogam no lixo alimentos perfeitamente aproveitáveis. Talvez porque nunca tenhamos enfrentado hecatombes , calamidades, guerras, ser perdulário na cozinha tornou-se algo muito comum. Ter muito na natureza pródiga talvez também haja condicionado o desperdício, algo impensável nos países onde a economia de recursos avançou com a falta. 
 

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