Festival Fartura: unidos pelo prazer de comer bem


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Mujica de peixe com cogumelo. Fotos: Luis Henrique Borba
Mujica de peixe com cogumelo. Fotos: Luis Henrique Borba
Para determinado grupo social, não é a fome que o move em direção à comida, mas o prazer. A oferta de alimentos é tão abundante, que saciar o corpo tornou-se acessório do bom gosto. Foi com um grupo assim que marquei um encontro, não que fôssemos amigos (em realidade, nem conhecidos), tínhamos um interesse comum: participar do Festival Fartura para experimentar bons pratos e provar ingredientes desconhecidos por nós.
 
O Fartura é particularmente interessante porque não nasceu “festival”. Ele foi antes uma viagem muito longa que já dura 5 anos - e não pretende parar. Os organizadores do evento se orgulham de terem percorridos 71 mil quilômetros e editado 4 livros que contam essa história. O festival, portanto, é o resumo do melhor, só que ao vivo. O objetivo é a insana pretensão de descobrir uma cara gastronômica para o Brasil e, nesse aspecto, nossa vantagem é também nossa desgraça, porque somos diversificados e porque somos grande. Os historiadores adoram dizer que o brasileiro é um amálgama de três culturas diferentes: o índio, o negro, o português. Isso é inegável, só que o fiel da balança é descalibrado nas várias regiões do país. Só para ficar num único exemplo, a indígena Maniçoba é um prato típico paraense e tão estrangeiro quanto uma boulabesse. No entanto, gosto de pensar que, se meus irmãos se reconhecem nesses pratos “estrangeiros”, eu posso me sentar nessas mesas.
 
Não era nem meio-dia e já estávamos, eu e meu marido, à espera da abertura do evento. Meio trabalho, meio diversão, me precavi com uma lista de prioridades. Os ingressos foram adquiridos pela internet ao valor de R$ 20 cada (o festival cobra entrada, além do valor dos pratos que variavam de R$ 20,00 a R$ 30,00). Entramos ao meio-dia e todos os estandes estavam prontos. Minutos depois, começaram a surgir os “homens caixas”: pessoas uniformizadas vendendo fichas de consumo, uma boa ideia. 
 
Compramos fichas e nos dirigimos a entrada: bolinho caipira e vegetariano, do Maria Farinha Cozinha. O caipira, meu maior interesse, é feito de angu e recheado com carne; o vegetariano, mesma massa só que recheado de milho verde e muito cheiro verde. Pensar nos dois é pensar em tons intensos e suaves dos sabores, todavia, me enganei. O bolinho de milho verde é muito superior. O recheio lembra muito o do pastel de milho da barraca da feira, portanto, muito cremoso. A aparência alusiva a pátria é encantadora. Enfim, quase cometo a bobeira de comer a porção de três bolinhos e comprometer o resto.
 
Como se preparar para enfrentar um festival gastronômico, quando a gente deve experimentar mais que a dieta e a contabilidade recomendam, é coisa que não se sabe bem. Comigo, um copo de frutas frescas e um espresso duas horas antes se mostrou perfeito, porque parti sem sustos para os pratos principais. Telma Shiraishi, do Aizomê, nos serviu uma tainha temperada com sal e pimenta, milho doce, creme de milho e shisô. O mais interessante desse prato foi, de novo, o milho. Uma coisa aparentemente boba fez o prato saltar várias categorias milhos debulhados, envoltos e fritos na massa de tempura pareciam grãos de ouro capturados por uma nuvem, crocantes e levemente doces, levados à boca, juntamente com o peixe e a erva japonesa shisô, foram um cipoal de informações para o paladar. Para o meu marido, o melhor prato do evento.
 
O segundo prato principal veio de mais longe que se possa imaginar: uma Mujeca de peixe com cogumelos Yanomami, do O Banzeiro. O prato merece uma análise do mais simples para o mais complexo. O mais simples é a Mujeca de peixe. Uma espécie de pirão fino com o peixe desfiado e cozido num caldo com pimenta e pimentão, beiju de mandioca para engrossar o caldo e cogumelos. Se as minhas papilas gustativas falassem, elas diriam que o sabor é aquoso, como o são os caldos amazonenses. É curioso como os ensopados do Pará ou da Amazônia são mais “limpos”, bebe-se a água depois a pimenta, a farinha...
 
O complexo é o cogumelo Yanomami - que dificuldade para se tê-lo! Da cidade de Manaus até a tribo, só de avião. A permissão para negociação é do instituto ISA. Poucos índios detêm o conhecimento para separar o cogumelo venenoso do saudável, o método é extrativista, os cogumelos nascem do jeito que querem, principalmente nos troncos de árvores mortas em decomposição. Naturalmente, todos esses obstáculos originaram um produto caro R$ 1.000,00 o quilo. Nós pagamos 30 reais na Mujeca de peixe com beiju e cogumelo Yanomami. 
 
As porções eram pequenas o bastante para serem chamadas de degustação, por isso ainda estávamos dispostos a experimentar o improvável nhoque de batata roxa. É realmente uma pena não termos por aqui essa batata que é mais bonita que a beterraba e tem textura perfeita para massas. É uma alegria ter no prato aquelas bolinhas cor de magenta. Ainda por cima com molho de queijo e castanha de caju para a crocância. Um prato italiano, do Eataly, que reconhecemos como comida de mãe, uma antropofagia cultural que se iniciou nas lavouras de café, fez da culinária italiana uma autêntica representante da polifônica gastronomia brasileira, principalmente paulista.
 
O milho
Considero que o milho teve forte presença no Fartura: um prato japonês, os bolinhos vegetarianos, as massas de fubá, carrinho de pipoca gourmet. Esse resgate nos leva diretamente às roças de milho e quintais da nossa infância caipira. A mandioca está suficientemente cultuada - nossa rainha absoluta, responsável por matar a fome de famélicos brasileiros. Acredito que o milho pode esperar por mais seriedade e criatividade.
 
Ficou também evidente a preocupação com o público vegetariano. Um visível V verde, marcava os locais servidos de comida sem carne. Os não carnívoros deixaram de ser meros pontos fora da curva para se tornarem uma “minoria qualificada”, com forte campo de atração. Foram os responsáveis por grandes filas no evento: o acarajé vegano agradou em cheio. A grande Elizabeth David disse que: “É na questão dos legumes e das frutas que os hábitos alimentares de um país evoluem com maior rapidez”. Busco a rapsódia vegetal do brasileiro e me espanto com a nossa evolução, num dia salada é sinônimo de tomate, alface e pepino, noutro a incrível variedade é que espanta. Em 1960 David previu: “Assim fico imaginando se eventualmente não vamos chegar ao costume (...) de encarar os pratos de hortaliças como uma parte importante da refeição, em vez de simplesmente um complemento ao assado. ” 
 
Contudo, agradável é o melhor adjetivo para o festival. Sem indignidades ou promessas, com chefs bem-humorados e dispostos a conversar. Comidas, bebidas e músicas gostosas e de qualidade em qualquer canto. Quando até uma chuva de folhas sobre os pratos não tira o bom humor das pessoas, pode-se dizer que tudo à mesa foi um sucesso.
 
O Festival Fartura é um evento de gastronomia que reúne chefes de cozinha de todo o país. Em São Paulo, foi realizado em julho. De agosto a outubro, terá espaço em várias cidades do país. Mais informações na página do Face, Fartura Brasil.

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