Vivemos um momento peculiar da civilização, que costumo comparar com a transição do período onde os monges copistas tiveram a importância de sua função drasticamente reduzida, tão logo a prensa inventada por Gutemberg por volta de 1430 começou a funcionar. Os livros, caríssimos até então, eram obra de muitas vidas dedicadas a único exemplar, como se pode ver na biblioteca do Trinity College, em Dublin, na qual se encontra em exposição permanente o Livro de Kells.
Peça principal do cristianismo irlandês e da arte saxônica, ele constitui, apesar de não concluído, um dos mais suntuosos manuscritos que restaram da Idade Média. Em razão da sua beleza e excelente técnica de acabamento, é considerado por especialistas um dos mais importantes exemplares da arte religiosa medieval. Escrito em latim, contém os quatro Evangelhos do Novo Testamento, além de notas preliminares e explicativas, e numerosas ilustrações- as chamadas iluminuras coloridas. Restou como lembrança de um tempo em que um livro levava décadas para ser concluído.
A prensa criada por Gutemberg mudou a face deste mundo das palavras escritas e sinalizou a entrada da humanidade em nova era. A invenção democratizou o acesso ao conhecimento, pois os livros publicados em série tornaram-se cada vez mais baratos. Multiplicaram-se os leitores; animaram-se os autores com a possiblidade de chegar com rapidez e sem custos exagerados ao público. Surgiram os jornais que além do noticiário factual abriram a partir do século XIX espaços para contadores de histórias seriadas, os folhetins. Ler tornou-se um prazer do qual se ocuparam cada vez mais humanos de todas as classes sociais.
O primeiro livro impresso foi a Bíblia, mas não em latim, contrariando tradição histórica, e sim em idioma vernáculo, o alemão, o que abriu larga porta à precipitação do movimento da Reforma Protestante. Gutemberg precipitou com a revolução técnica que modificou totalmente os modos de reprodução dos textos e produção dos livros, outras revoluções: religiosas, políticas, ideológicas. A cópia manuscrita deixava de ser o único recurso disponível para assegurar a multiplicação e a circulação dos textos e das ideias. Páginas reunidas em volumes que podem, conforme o caso, caber num bolso, o livro está durando mais de 500 anos.
Uso o gerúndio do verbo “durar”porque ainda não sei se têm razão os que dizem que o prazo de validade do impresso venceu, já que cresce de forma espantosa o texto eletrônico e a leitura em monitor ; ou os que apostam numa reconfiguração do impresso, com destinação de obras a nichos e públicos específicos. De minha parte, enquanto encontrar meus autores preferidos no impresso, é nele que os lerei.
Todo este vasto preâmbulo, desculpem-me os que abominam “textões” (mas estes não devem ter chegado até aqui) é para falar de um trabalho divulgado na televisão. Foi uma pena ter pegado o bonde andando, mas o que vi me deixou entre surpresa, emocionada e empolgada. Trata-se de programa desenvolvido em presídio feminino do Brasil e no qual comecei a botar fé. Uma curadora ligada à educação organizou pequena biblioteca, com títulos de ficção de autores selecionados, e à qual têm acesso detentas interessadas. Mas não basta escolher o livro, levar para a cela e devolver dizendo que leu. Cada leitora deve responder a questões elaboradas pela mesma curadora sobre a história, os personagens, as situações que mais chamaram a atenção, detalhes que despertaram alguma reminiscência, etc. Lido o livro, feito o resumo da narrativa e respondidas as perguntas que averiguam o entendimento, as presidiárias obtêm três dias de remissão de pena. Para quem está em liberdade isso pode significar nada; mas para quem se en
contra num cárcere, é recurso valioso de alívio de pena.
Algumas aceitaram dar depoimentos, e o que disseram me levou a crer, mais uma vez, na força libertadora da boa literatura. Uma disse que “estava cega para o mundo” antes de começar a ler no presídio; outra, que “se conhecesse o que os livros contam, é possível que não estivesse aqui”; a terceira fez questão de lembrar que as horas passadas na biblioteca improvisada a ajudam “a sair de sua cela e viajar a outros lugares onde um dia quer viver”. A que me tocou de forma especial aludiu ao rico mundo do dicionário, “explicando tantas palavras que eu não conhecia, nem sabia que existiam.” Essas mulheres, cumpridas suas penas, vão com certeza sair um pouco melhores da prisão. Como uma delas explicitou, “ Vamos estar menos cegas para os perigos do mundo.” Pensei na série “Orange is the New Black”, cuja terceira temporada assisto no momento , perplexa como as personagens diante de livros transformados em carvão, por conta de duas pragas: uma de percevejos e outra de crueldade.
Franca tem vários projetos de leitura para crianças e adultos e um deles é o Roda Livro, criado por Rita Silvestre Moscardini e Elaise Mello Barbosa, que trabalham em parceria com Maria Luiza Salomão, Regina Bertelli, Solange Borini e Tania Liporoni. Já ouvi falar de outros grupos que fazem leitura para idosos, nos asilos e casas de repouso. Também há quem leia para pessoas hospitalizadas. Não sei, porém, se existe algo semelhante a este trabalho de leitura com presidiárias, como a TV a cabo mostrou num momento onde o noticiário nos estressa com relatos de violência e crimes de corrupção. Se não há, fica a ideia, pela qual vou torcer e que hei de apoiar com entusiasmo se algumas almas generosas e amantes da literatura puderem dedicar um pouco de seu tempo a tal causa.
Livros podem salvar em situações de extrema precariedade e angústia. Disso não tenho dúvida.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.