Um pingo, um simples pingo d’água risca a escuridão e quebra a quietude que se queda estilhaçada. Da boca fechada da torneira despenca gota a gota o suor do tempo que explode, soa e ressoa na casa. E sua pancada afiada e intermitente fere não sei onde.
Visivelmente perturbado, o Sono, com os olhos arregalados, senta-se na beirada da cama. Daí a pouco, escuto o arrastar de seus chinelos, ouço o barulho das portas do quarto, da casa se abrindo. Sei que agora ele se sentará na linha do horizonte e ficará namorando estrelas até a chegada do sol. Amanhã passará o dia todo bocejando, o rosto cansado, os olhos vermelhos.
A Solidão aproveita portas destrancadas, entra sorrateiramente, enrola-se em meus lençóis. Amorosa, segura minha mão, aconchega-se em mim, começa a falar baixinho. Cochicha em meu ouvido mentiras lindas, dizendo que minha amada voltará, que o quarto ficará de novo colorido e que ela, a Solidão, se mudará em definitivo para outra rua, para outra cidade, para outro país...
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