A caçamba cinza da casa inacabada
impõe-se como nota dissonante
na manhã de claro inverno tropical.
Dentro dela pedaços de concreto,
tijolos chamuscados, ferros retorcidos,
gesso quebrado, latas vazias de tinta
com seu gelado metal à vista.
Sacos de plástico- destes que dizem levar século
até o desfazimento total
dentro da terra empanzinada.
Mais pregos, parafusos,
sarrafos, folhas mortas.
E uma folhinha bem antiga_
a que chamam calendário
e alguns penduram em portas.
No final do dia virá o homem
e cobrirá os entulhos com lona preta
como a preparar funeral.
Será o cuidado vespertino
(antes que caia a noite sepulcral)
para a coleta da manhã seguinte.
Tanto peso na caçamba,
tanta ausência de cor,
tanta falta de ar:
parece até minha alma
em certos dias de agouro
Que guindaste será capaz de alçá-las?
À caçamba, o gancho de aço com certeza.
À minha alma talvez a brisa fria
que livra das mãos frágeis da menina
a pipa que baila triste neste agosto.
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