De ‘Sagarana’ ao ‘Grande Sertão’


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Regina Helena Bastianini, Luiz Cruz de Oliveira e Edna Mendes Bastianini
Regina Helena Bastianini, Luiz Cruz de Oliveira e Edna Mendes Bastianini
Depois de 21 títulos de ficção, três de história e teoria literária e sete didáticos, Luiz Cruz de Oliveira lança em parceria com Regina Helena Bastianini e Edna Mendes Bastianini Estrada para Grande Sertão. Os três são nomes renomados e reverenciados quando o assunto desliza para os ricos espaços da Língua Portuguesa e Literatura. 
 
No prefácio, a professora Regina Bastianini, também poeta e ficcionista, define o livro como um trabalho que “é, a um tempo, uma ousadia e um ato de humildade. Ousadia-porque falar sobre Guimarães Rosa e sobre sua obra é uma temeridade, já que ambos são objeto de incontáveis estudos por parte de especialistas. Um ato de humildade- porque não temos a pretensão nem de inovar , nem de esgotar qualquer assunto. Queremos simplesmente contribuir para facilitar e tornar mais prazerosa a leitura do iniciante na obra desse autor e lançar uma pequena dose de adubo no cultivo do gosto pela leitura.”
 
Para falar sobre o livro lançado ontem no curso “Ave, Palavra”, que tem como diretora Edna Bastianini, entrevistamos os autores. 
 
Como surgiu a ideia de publicar mais este título?
Luiz - Somos professores de Língua Portuguesa. E, ao longo dos anos temos sido procurados insistentemente por estudantes desejosos da leitura e compreensão da obra de Guimarães. 
 
Como foi o trabalho de parceria com Regina e Edna, suas amigas de uma vida e, como você, profundamente interessadas em literatura de Língua Portuguesa?
Luiz - Foi tranquilo. “Ditatorialmente”, impus a divisão de tarefas, estabeleci prazos, comportei-me com o “sereno espírito de feitor” que me caracteriza, e o livro foi brotando.
 
De onde vieram as fotos sugestivas em p/b que o leitor encontra à guisa de ilustração?
Luiz- Pertencem ao acervo de Roberto Teles Zanin, exceto a do menino montando o burrinho. O menino da foto é meu pai. Por algum milagre, a foto se conservou por cerca de um século e chegou-me às mãos.
 
Regina,  no parágrafo final do prefácio você diz que “as narrativas de Sagarana nos abrem portas para acompanharmos os passos de Riobaldo em sua grande travessia exterior e interior, para uma grande viagem literária e humana”. Em Sagarana temos a gênese de Grande Sertão?
Regina -Acredito que a percepção e sentimento de mundo do homem vai sendo “construída” ao longo da vida -  uma grande obra cujo conteúdo e cuja forma estão em permanente elaboração(...) O grande artista é um eterno lapidário, um desbravador em todos os sentidos e, também ao contrário do homem comum, deixa sua obra registrada de alguma forma. Nesse sentido, acho que se pode pensar em Sagarana como gênese de Grande Sertão. 
 
Você, que é mestra de vestibulandos, acredita que haja espaço na estante do jovem leitor brasileiro para Guimarães Rosa, considerado por muitos um “escritor difícil”?
Regina-Acho que, como sempre, há espaço para a literatura de maneira geral na estante de alguns jovens brasileiros. A maioria faz a lição de casa para ficar livre ou para “passar no vestibular”, e o faz até bem, muitas vezes. Depois vira as costas aos livros. Penso que transformar-se em leitor de fato, principalmente de Guimarães Rosa, depende de gosto, de acesso a livros (o que não é tão difícil hoje) e de acesso a uma Educação Integral que exige educadores que, acima de tudo, respeitem a vida e o ser humano. 
 
Dadas as facilidades e os atrativos do mundo digital os jovens estão deixando de ler no impresso?
Regina- Infelizmente sim. Cabe à educação mostrar a importância e necessidade do mundo digital e do “mundo impresso”.
 
Os clássicos precisam ser lidos. Como estimular o jovem a entender tal necessidade e empreender a viagem?
Regina- Formando o ser humano em primeiro lugar, depois o profissional de qualquer área, depois o leitor... Acredito piamente que precisamos encontrar uma forma de voltar os olhos das novas gerações para a grande epopeia da Vida e para o heroísmo do homem e que esse é um caminho possível de busca do respeito mútuo e da convivência pacífica. Os clássicos são registros da grande viagem da vida.
 
Edna, em que gênero se insere Estrada para Grande Sertão?
Edna- É uma miscigenação narrativa-dissertativa. Isso porque os contos são recontados, mas a fim de que Cruz argumente realçando a genialidade de Guimarães Rosa. Este, em sua travessia literária, foi ampliando o seu “sertão” cada vez mais. A obra Grande Sertão: Veredas, considerada a mais perfeita no Brasil no século XX, de certa forma origina-se do livro  Sagarana.
 
Você já havia assinado outra obra em parceria com Cruz e Regina?
Edna- Essa foi a primeira experiência (e diga-se de passagem, muito prazerosa). O Cruz tinha esse esboço guardado há muito tempo e, quando percebeu minha disposição em acompanhá-lo no processo de análise e finalização do texto, fez-me o convite. Cruz e Regina sempre foram os meus mestres, foi, através deles, que me apaixonei pela Língua Portuguesa e pela Literatura, por isso pude contribuir.
 
Em que medida o livro será de valia para o leitor- vestibulando ou não?
Edna- A arte literária nos faz crescer constantemente. Ela contribui com o nosso conhecimento e a nossa alma. Mas quem tem o privilégio de compreender o universo de Guimarães Rosa trilha veredas muito mais ricas.
 O livro, por ser uma análise de todos os contos de Sagarana, pode ajudar os vestibulandos e todos os que se interessarem pelo assunto a entrar em contato com a sabedoria de João Guimarães Rosa.

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