“danço eu, dança você, a dança da solidão” (Paulinho da Viola)
Muitas vezes cai o véu, talvez sete véus, talvez sete vezes sete, sete vezes sete mil vezes os véus que encobrem a nossa cegueira, voluntária ou inconsciente, a ignorância, a ingenuidade, a estupidez, a teimosia, o espavor pela constatação do que é.
O que é: sem concessão alguma. O que é, é. Substantivado. Mas, há quem troque os sinais e queira a ilusão, alentado pelo Desejo, pela Esperança, pela Crença de que tudo pode contra o que é.
E não há poder algum contra o que é. O que é mostra-se na origem, na semente da árvore que um dia se mostrará infértil ou fértil, sadia ou doente. É na semente que reside a potência do ser. A possibilidade do ser. A probabilidade do ser. A contingência do ser.
O que é depende de circunstâncias, de continuidades, de resiliência às rupturas.
A semente, carregada pelos ventos erráticos, precisa de ninho, de condições para o desabroche. Ela é simultaneamente transporte e alimento: mensageira e consistência para o porvir. A semente é. O próximo estado de semente, o broto, também é. Tudo vai surgindo lentamente, quase à revelia, mas há um curso inexorável.
Pau que nasce torto cresce torto? Talvez. Mas talvez não: se há o encontro preciso com a compreensão, a devoção, a responsabilidade pela potência, pela possibilidade, probabilidade, contingência do ser.
Quem sabe o torto seja, afinal, o que define o que é. E a tortura tenha um fim.
Somos seres em permanente desenvolvimento. Sociais, desde sempre, desde o nascimento. Dependemos de circunstâncias, de ventos favoráveis, de ninhos e de condições para o desabroche.
Iludidos desde sempre, vamos desfolhando as ilusões, e evoluímos para sementes.
De semente à semente.
A questão é – que semente legarei ao mundo, com que potencialidade, probabilidade, possibilidade?
Quero guardar o dois de agosto de dois mil e dezessete como uma semente muito má plantada no quintal de meu país, que precisará de muitas circunstâncias favoráveis para se desenvolver em semente sustentável. Danço eu, hoje, dança você, hoje, dançamos todos, hoje, a dança de uma solidão cidadã.
Continuo cidadã. Canto, com Paulinho da Viola:
Apesar de tudo existe
Uma fonte de água pura
Quem beber daquela água
Não terá mais amargura
Oh!...
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