Ninguém pode se achar acima da lei


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MUITOS NO PAÍS SE CONSIDERAM ALÉM DA LEI, MAS AS COISAS ESTÃO MUDANDO
Houve uma época no Brasil em que se dizia que a Justiça existia apenas para três “p”: preto, pobre e prostituta. Mais recentemente, durante os vinte anos de ditadura militar, a carteirada dava o tom. “Você sabe com quem está falando?” tornou-se argumento corrente. E criminosos se livravam de julgamentos e sentenças, enquanto cidadãos sem qualquer delito eram presos e, muitas vezes, sumariamente executados. Atualmente, o Brasil vive uma fase democrática onde as instituições estão fortalecidas, permitindo que a Justiça faça a sua parte, apurando e condenando quem se achava, há menos de uma década, acima da lei e dos julgamentos. Ainda na época do Mensalão, quando se argumentava que o ex-deputado José Genoino não poderia ser preso por causa da sua história de luta contra a ditadura, viu-se que ninguém mais está acima do bem e do mal.
 
Quem acompanhou ontem a arrastada sessão da Câmara dos Deputados, realizada em Brasília e transmitida por todo o País pela televisão (até a Rede Globo interrompeu sua programação para transmitir voto a voto), viu uma sucessão de parlamentares (grande parte deles implicada nas denúncias de corrupção investigadas pela Lava Jato, deflagrada em março de 2014) usarem o nome do povo brasileiro para impedir que o STF (Supremo Tribunal Federal) investigue o presidente Michel Temer (PMDB). Pesquisas recentes mostram que a população brasileira quer ver as denúncias (ilustradas por uma gravação nada republicana do chefe da Nação com o empresário-delator Joesley Batista e por uma imagem de um ex-deputado correndo por rua de São Paulo com uma mala de dinheiro) apuradas. A baixa popularidade do atual governo federal deixa claro que a população não está contente com os rumos da administração Temer.
 
A pantomima de ontem deverá receber, no devido tempo, a resposta correspondente não apenas da Justiça, mas também dos eleitores. A vergonhosa barganha a que o Planalto e parlamentares que não primam pelo interesse público precisa ser repudiada de forma contundente para mostrar que o Brasil não compactua com atos ilegais ou imorais. O rombo nas contas públicas do Tesouro Nacional é um indício claro de que o governo de Michel Temer não conseguiu a estabilidade que apregoa. O brasileiro está sendo obrigado a cobrir o descontrole nos gastos que se arrasta desde o primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT). Ao liberar bilhões de reaus em emendas parlamentares (em troca de votos a seu favor) e abrir mão de pontos das reformas trabalhista e previdenciária, beneficiando grupos privilegiados, Michel Temer se entregou. Caso fosse inocente como insiste, não teria o que temer com uma investigação. Nossa esperança é que um dia ele terá de se explicar.
 

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