Quando eu morrer, vistam-me terno de microfibra italiana, de cor sóbria. A camisa branca pode ser de tricoline. A gravata não pode ser outra: Armani genuína, cuja cor poderá ser escolhida por conselho de família. Pinguem na lapela algumas gotas de perfume francês - pode ser Jean Paul Gaultier. Calcem-me meias escuras, combinando com a cor do paletó e das calças. O sapato social há de trazer a chancela Donadelli, Samello, HB ou Sândalo.
Se acharem por bem, pintem suavemente meu cabelo, mandem fazer-me a barba.
Façam tudo isso, fiquem felizes e sintam-se ainda livres para iniciativas outras objetivando o bom gosto, uma apresentação distinta e condizente com a ocasião.
Façam tudo isso. E façam tudo o que quiserem, quando eu morrer.
Mas, por enquanto, tenham paciência.
Deixem que eu ande despreocupado pelas ruas, com minha camiseta ostentando manchas de café, com minhas calças jeans amarrotadas, com meus tênis surrados.
Entendam que sou distraído, que me esqueço do pente, que não tenho tempo nem vontade de me barbear.
Quando eu morrer, podem me enquadrar, façam o que quiserem.
Por enquanto, por favor, tenham paciência.
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