'É uma experiência ímpar: tudo que tenho saiu do pão'


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É possível que ao abrir as páginas do jornal e chegar a esta entrevista você já tenha tomado o café da manhã. Possível também que muitos ainda estejam comendo o tradicional pãozinho francês neste momento, afinal de contas, a combinação pão, café e jornal é perfeita nas manhãs de domingo.
 
Então, bora falar de pão. Você sabia que em Franca há cerca de 90 padarias e que são produzidos cerca de 350 mil pães todos os dias na cidade?
A estimativa é do empresário Augustinho Valdemir Juliati, 54. Dono de padaria e presidente do Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria de Franca e Região, ele recebeu o Comércio para falar sobre o setor que emprega mais de mil funcionários. Bom café e boa leitura!
 
A crise econômica atingiu quem vende pão?
Como todos os segmentos no Brasil, a indústria de alimentos também é atingida, porém, o nosso setor é o último a entrar na crise e o primeiro a sair desta situação grave que o País atravessa, de recessão. No caso específico de Franca, também estamos sentindo os efeitos na pele. Houve uma queda nas vendas na ordem de 10% a 15%. Agora, nesta época do frio, é natural que o consumo de alimentos e do pão cresça. O setor vinha se recuperando, mas a partir das denúncias envolvendo a JBS, sentimos que houve uma recuada.
 
Por que o pão é mais caro na padaria do que no supermercado?
O custo operacional da padaria é totalmente diferente do que o do supermercado. A nossa despesa é toda diluída na padaria, enquanto nos supermercados é diluída entre todos os produtos. Também há a questão do reaproveitamento da mão de obra. Na padaria, diferentemente, dos supermercados que podem deslocar o funcionário ocioso para outro setor, não temos esta possibilidade. Em todo o Brasil, os supermercados usam a estratégia de reduzir o preço do pão para atrair o consumidor. Como as padarias vivem da venda do pão, temos qualidade e atendimento diferenciados. Nos supermercados, o pão é apenas mais um item.
 
Com a diversificação dos produtos oferecidos nas padarias, o pão ainda é o item mais vendido?
Sem dúvida, o pão ainda continua sendo a vedete das padarias. Com a diversificação de mercado, com a crise econômica, todos precisam reinventar o seu negócio e, nós, panificadores, não somos diferentes. Hoje, nas padarias, o cliente encontra desde o pão, a grande variedade de quitandas e também o food service, que vem tendo um crescimento muito acentuado. Além do café da manhã, as padarias servem o almoço e o coffee break da tarde. Estamos nos preparando para atender toda a alimentação completa, desde a hora que abrimos até o fechamento.
 
As padarias se transformaram em ponto de lazer e de negócios...
Sim. Isso acontece, pois as padarias estão se revolucionando e criando espaços específicos para atender a dona-de-casa que gosta de reunir as amigas, os empresários que vão concretizar negócios e, claro, aqueles que querem apenas tomar um café. Os estabelecimentos oferecem toda a estrutura necessária para receber e atender as necessidades dos clientes. A padaria é um point hoje.
O senhor trabalha com pães há quanto tempo?
Eu comecei a atuar no setor em 1986. Estou completando 32 anos no mercado. Tenho o maior orgulho de fazer parte desta cadeia produtiva, pois produzimos o primeiro alimento do ser humano, que é tradicional pãozinho.
 
O que o pão representa para o senhor?
O pão não minha vida é uma experiência ímpar. Aprendi desde cedo que tenho que me dedicar muito. Tudo o que tenho hoje, foi graças ao meu empenho e à minha dedicação. Tudo o que tenho na vida saiu do pão. Eu vivo, amanheço, trabalho o dia todo e durmo respirando pão. É uma atividade que exige de nós empresários 24 horas sem interrupção pensando no seu negócio. Padaria é uma profissão que você tem que ter amor, gostar do que faz e não ter medo de trabalhar. A padaria abre cedo e fecha tarde, fora aquelas que funcionam 24 horas. É preciso dar a alma para ser bem sucedido.
 
Há mão de obra suficiente, tem desemprego no setor?
Sempre tivemos um déficit de mão de obra muito grande em todo o Brasil. Aqui em Franca, há quatro anos, criamos, em parceria com a Prefeitura, a escola de formação de padeiros e confeiteiros. A escola colocou muita gente no mercado, o que facilitou muito. O bom profissional no segmento de padaria e confeitaria não fica desempregado. Agora, é preciso ter comprometimento com a empresa, assim como o dono também precisa ter o comprometimento com o seu negócio. Quando há o comprometimento de ambas as partes, o funcionário não fica desempregado, não, e o salário é acima da média do pago pela indústria calçadista.
 
Uma das atrações mais concorridas da festa de aniversário de Franca é a distribuição do bolo gigante, que é uma iniciativa das padarias da cidade. Vai ter bolo este ano?
Eu fui o idealizador desse bolo há cerca de seis anos, em parceria com a Prefeitura. Sem dúvida, é um sucesso absoluto. No último ano, tivemos mais de 7 mil pessoas no Parque “Fernando Costa”, que foram em busca de um pedaço do bolo, que tinha quase 100 metros. Pretendemos repetir esta parceria com o atual governo. Se houver o interesse do prefeito (Gilson de Souza, DEM), o nosso sindicato estará à disposição para ajudar e vai ter bolo para todo mundo.
 
O que o sindicato oferece para os associados?
Eu estou presidente há cerca de oito anos, e era um sonho nosso ter esta sede própria. Por meio de promoções e apoio dos fornecedores, conseguimos comprar o terreno e fazer a construção na Vila Imperador. Vamos oferecer atendimento jurídico para todos os associados. Temos um centro técnico para o desenvolvimento de produtos e treinamento de padeiros e confeiteiros pelas empresas parceiras.
 
O senhor firmou parceria com os voluntários do Hospital do Câncer. Como a ajuda será dada?
Venho batalhando junto ao nosso segmento para que a gente tenha um trabalho social marcante. Os voluntários realizam um brilhante trabalho e será um prazer muito grande poder colaborar. Vamos fornecer camisas com as logomarcas do sindicato e das padarias. No dia 16 de outubro, que é o Dia Mundial do Pão, as padarias parceiras vão disponibilizar os seus pontos para a venda das camisas. Toda a renda será revertida ao grupo de voluntários, que irá empregar no trabalho prestado aos pacientes.
 
Na festa dos panificadores, virou tradição a distribuição pães, bolos e tortas aos convidados, que saem com as mãos cheias. Como surgiu a ideia?
Os produtos são produzidos pelos moinhos da farinha e pelos fornecedores de matéria-prima. No meio da festa em diante, liberamos tudo. Quando o primeiro convidado pega, todos vão atrás e esvaziam as mesas, até os panificadores pegam (risos). É uma tradição nossa fornecer o alimento como uma lembrança da festa. Quem não está acostumado estranha, mas a vedete da nossa festa é falar do pão, que é nossa arte principal. A distribuição é uma maneira de promover o pão nas famílias.

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