Foi em 2004 que, em conversa com o linguista Sebastião Expedito Ignácio, ouvi algo que me ficou na memória: “Acho que nos próximos anos teremos ficcionista de muito destaque na literatura de Franca, desses que se elevam pela originalidade, ganham prêmios, promovem o nome da cidade.” Bem profético o saudoso amigo, ao pensar, como o professor e escritor Luiz Cruz de Oliveira, que obras maiores costumam surgir em contexto onde múltiplas formas de escrita são elaboradas. Franca, com grande número de autores, representaria este espaço fértil para a criação literária de excelência. Diante da bagagem de Vanessa Maranha, é fácil reconhecer a escritora anunciada, que começava então a gestar sua obra com Cadernos Vermelhos, lançado em 2003. Composto por fragmentos, o livro chamou atenção pela forma menos ortodoxa e pelo ponto de vista subjetivo.
Outros olhares destacariam a prosa de Vanessa Maranha desde suas primeiras publicações - os de jurados de concursos literários aos quais ela concorreu. Desde 1999, quando se classificou em primeiro lugar no de contos, “Locos de Atar”, na Argentina, os prêmios seriam a marca de uma carreira em ascensão. Em 2001 foi finalista do Prêmio Guimarães Rosa da Radio France Internationale; em 2004 venceu o de contos da Universidade Federal de São João Del Rei (MG); nesse mesmo ano ganhou o FEUC de Literatura. Em 2005 teve um conto publicado no livro +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, organizado por Luiz Ruffato e editado pela Record. Classificada no Prêmio Literário Cidade de Porto Seguro, em 2009, integrou coletânea do Projeto Vamos Ler o Mundo. Teve o texto Klaus selecionado para compor antologia do Prêmio SESC de Contos, no ano 2010. Foi uma das vencedoras do Prêmio OFF FLIP 2012 na categoria contos. Venceu o UFES de Literatura 2013/2014, da Universidade Federal do Espírito Santo, com o livro de contos Quando não Somos Mais e o Barueri de Literatura 2014 com Oitocentos e Sete Dias. Esteve entre os primeiros no Prêmio São Paulo de Literatura 2015 com o romance Contagem Regressiva. Outro romance, Começa em Mar, a ser lançado hoje em Franca, recebeu Menção Honrosa do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura 2016.
Nome sempre lembrado quando se busca elencar ficcionistas que estão construindo nesses tempos pós-modernos a nova face da literatura brasileira, Vanessa Maranha é autora de Cadernos Vermelhos, RGE, 2003; Oitocentos e Sete Dias, Multifoco, 2012; Quando não somos mais, Edufes, 2014; Contagem Regressiva, Selo OffFlip, 2014; Pássara, Editora Patuá, 2016; Começa em Mar, Editora Penalux, 2017. A seguir, ela fala um pouco sobre seu processo de criação e a relevância da Flip.
Ser psicóloga ajuda na composição dos personagens?
Penso que sim, embora não seja definitivo. Tendo conhecimento teórico das estruturas clínicas e de teorias da personalidade, por exemplo, consigo talvez uma maior facilidade de delineação. Mas não é necessário ser formado em Psicologia para tipificar e dar profundidade psicológica aos personagens. É preciso sensibilidade e olhar não-condicionado para se compor grandes personagens.
Você reescreve muito? O trabalho de edição é cansativo?
Meu processo de criação é manuscrito. Escrevo um primeiro capítulo à mão e deixo-o descansar. Volto corrigindo à mão mesmo, editando. Depois digito. Na digitação, nova edição. E, posteriormente, mais uma. Sim, eu edito muito. Quando comecei a escrever, não o fazia, tinha a arrogância da juventude, de pensar que a coisa vinha praticamente pronta. Não vem. É preciso esculpir o texto, dar-lhe musicalidade, retirá-lo das idéias acostumadas, infundir-lhe reflexão, beleza e estranhamento.
O início de cada história concebida já está pronto ou ele pode ser alterado depois de escrito?
As duas situações acontecem. Contagem Regressiva foi concebido para ser um conto. Eu o escrevi muito influenciada por Julio Cortázar, no propósito de um livro desmontável, que pudesse ser lido e compreendido a partir de qualquer ponto. Cada capítulo se fecha em si como um conto autônomo, se você quiser lê-lo assim. Começa em Mar tem essa marca também, um pouco mais diluída.
Entre o conto e o romance, qual a distância?
O fascínio do romance é que, pelo período em que você se envolve em sua produção, como autor, você se torna habitante daquele mundo que criou, palmilhando os passos daquelas personagens, a atmosfera, toda a arquitetura e os seus temas passam a fazer parte da sua vida, há uma aderência. O conto é o nado ornamental, laboratório incrível. O romance, o mergulho. Sempre me agradaram as obras que trabalham a fratura na linearidade e as disjunções. A linearidade é uma ilusão, um desejo infantil. A mente não é linear, nenhuma vida se dá em linha reta.
Que autores a têm inspirado ultimamente?
As leituras são conjecturais, tenho momentos de grande paixão por tais ou quais autores e movimentos, mas Começa em Mar, esteticamente, tem um matiz kafkiano forte, Kafka é um dos meus autores de cabeceira. Voltei ao realismo mágico de Gabriel García Márquez no período em que escrevia este livro, retomei Fernando Pessoa para rebuscar a sintaxe portuguesa que eu pretendia.
Qual a importância da FLIP?
A Flip é um palco onde, por quatro dias, os holofotes se viram sobre a literatura, essa categoria artística relegada. É um momento para contato com editores, para a compreensão disso que chamam ‘mercado editorial’, para encontro com escritores, para compreendermos uma pequena fatia da contemporaneidade literária. Participei de quatro oficinas memoráveis na Flip. A deste ano, 2017, será a quinta, no pitching da Amazon.
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