O poeta e a vida me ensinam: amanhã estarei mudo.
O aprendizado é doído. Em cada estágio, úlceras, bolhas e cicatrizes parecem deformar a alma. Resultam, no entanto, intervenções restauradoras, saneando deformações grandes e pequenas.
Agora, próximo da diplomação, esqueço-me de possíveis provas.
Troco as cordas de meu violão e saio junto com o sol. Paro na porta da fábrica, ao pé da construção, na rua da lavoura e no meio do canavial, e canto meu canto de esperança para todos os homens.
À tarde, divido espaço com as cores do parque, imito todos os pássaros da fauna e canto meu canto de paz para todas as crianças.
À noite, encostado à parede, junto à janela, deixo que toneladas de amor platônico se liquefaçam e se concretizem em notas. Brincando com elas, canto para a amada o meu canto de todos os poetas.
Depois, afasto-me da janela ingrata, volto para meu quarto onde, deitado no escuro, canto para mim mesmo.
Canto cantigas de ninar, ternas e eternas.
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