Estação Franca


| Tempo de leitura: 5 min
Foto: Arquivo Laércio Piovesan
Foto: Arquivo Laércio Piovesan
Toda vez que ouvia Moonlight Serenade - fosse orquestrada pelo inesquecível Glenn Miller (que a compôs com Mitchel Parrish), fosse cantada por Carly Simon no esplêndido álbum homônimo de 2005, pensava naqueles anos que a minissérie da Globo bem adjetivou de “dourados.”
 
Talvez como milhares de outros francanos de minha geração que passaram por experiência semelhante, retomava, milagre da memória afetiva, os sons da Orquestra Laércio de Franca, que abria com esta canção norte-americana todas as suas apresentações na AEC.
 
Ouvia, me emocionava e concluía que existia um vazio na biblioteca dos leitores nascidos no Pós-Guerra que amavam este tipo de música. Sonhava um livro que resgatasse a importância das orquestras naqueles anos que o imaginário cultural tornaria singulares e mágicos. Tinha uma intuição de que elas haviam protagonizado papel expressivo na vida dos jovens de então, não apenas pelo caráter onírico da música que produziam e pela magia da dança que propiciavam; mas também pela capacidade de sociabilizar que estimulavam.
 
Durante décadas foram a grande atração das mais diversas comemorações que aconteciam no Interior, de festa de debutantes a formaturas, de aniversários de instituições a concursos de miss; de casamentos a mudanças de estação- como o famoso “Baile do Suéter”, que marcava nosso inverno tropical. Durante três décadas o País tinha vivido clima de transformação, com desenvolvimento e otimismo, contexto onde as orquestras se inseriam. Por que não se escrevia então sobre o papel representado por elas? me perguntava. 
 
E não é que - surpresa boa acontece!- me chegou às mãos, embalado com cuidado, tendo como remetente a editora Sesc, aquele que me faltava na estante e agora ocupa lugar também no coração. Falo do livro Big Bands paulistas, de José Ildefonso Martins e José Pedro Soares Martins. Nele, entre as nove orquestras elencadas, encontra-se a do nosso Laércio, o Laércio de Franca. Pronto! Lacuna preenchida, conforme pude constatar ao término da leitura que me pegou no fim de semana. Li de enfiada as 230 páginas, algumas ilustradas com fotos históricas. E em prévias: ele só será lançado oficialmente na Flip nos dias 27 e 28 deste mês. 
 
A obra nasceu de uma exposição do Sesc que movimentou Campinas em 2014. Chamou-se Big Bands Caipiras, nome expressivo na medida em que “caipira” nos define como moradores do Interior. Por meio de registros fotográficos e sonoros, e de textos de jornais e revistas, a exposição recambiou o público ao passado das Big Bands e reabilitou a memória dos que viveram o período onde elas pontificaram no cenário dançante, quando nem o conceito, nem a palavra “discoteca” tinham sido criados. Também mobilizou a alma de todos, não só sexagenários, que gostam de música e dança- e quem não gosta? Enquanto durou a exposição, a Orquestra Sul América de Jaboticabal (uma das mais antigas ainda em atividade), a Orquestra Tupã (da família Castro), e Arley e sua Orquestra (de Catanduva ), fizeram apresentações.
 
O curador da exposição, professor, advogado e pesquisador de música popular brasileira, José Ildefonso Martins, viu ali o embrião de um livro que pediria alguns meses de pesquisa e elaboração. Uniu-se a José Pedro Soares Martins, jornalista e escritor, autor de livros sobre meio ambiente, cidadania, história e cultura, e assim, a quatro mãos, foi construída a obra importante que é tema destes comentários. Segundo Danilo Santos de Miranda, os dois Martins estipularam quatro critérios para selecionar as orquestras que são a matéria do livro: “ a definição das orquestras de baile, que geralmente têm entre 15 e 20 músicos, incluindo um naipe de metais completo (trompetes, trombones, saxes e clarinetas), seção rítmica com guitarra, baixo, bateria e piano (ou equivalente), um ou dois cantores e poucos instrumentos eletrificados; a localização geográfica das cidades onde estavam sediadas, obrigatoriamente no interior de São Paulo e a mais de 200 km da capital; a época e longevidade de sua atuação, optando-se por con
juntos com maior tempo de atuação a partir dos anos 1940, com ênfase nos anos 1950 e 1960; e o acervo encontrado, ou seja, a disponibilidade de documentação consistente.” 
 
Dessa maneira, o cotidiano de nove orquestras de baile pôde ser mapeado, analisado e registrado em detalhes. Cada uma ganhou seu próprio capítulo, que, por sua vez, traz o nome da principal estação de trem do município onde estava sediada. Foram contempladas Catanduva, Espírito Santo do Pinhal, Franca, Guararapes, Jaboticabal, Jaú, Rio Claro, São José do Rio Preto e Tupã, vinculando-se assim o sucesso das big bands às ferrovias que contribuíram consideravelmente para o desenvolvimento das cidades do interior paulista. 
 
O capítulo que a nós, francanos, diz especialmente respeito tem por título “Estação Franca” e o subtítulo “A Orquestra Laércio de Franca encanta desde a terra do Imperador”. Começa assim: “ Foram mais de 2500 bailes em centenas de cidades brasileiras, um filme e dois discos. Esses números não são suficientes para traduzir a enorme contribuição da Orquestra Laércio, de Franca, para a galeria das grandes orquestras do interior de São Paulo. Ao som do prefixo “Moonlight Serenade” e sob a batuta do maestro Manoel Laércio Piovesan (exímio trompetista que acompanhou Ary Barroso e se destacou no disputado mercado das rádios do Rio de Janeiro e de São Paulo), a orquestra ajudou a projetar a Franca do Imperador, como é conhecida a cidade situada na divisa com Minas Gerais.” 
 
Em treze páginas e dez fotos, os autores falam da orquestra, de sua formação que variou ao longo do tempo e da vida dos dois irmãos que a inseriram na história da música em nossa cidade, no Estado, até mesmo no País: Laércio e Miroel Piovesan. 
 
Pesquisa alentada, traduzida em linguagem escorreita e num estilo que convida ao avanço da leitura, Big Bands paulistas traz ainda um posfácio que pode ser avaliado como a gênese de outro livro. Assinadas por Sérgio Stephan, doutor em história pela PUC e pós-doutor em história e música pelo Instituto de Artes da Unesp, as páginas finais registram informações sobre o surgimento da música popular em nosso País, o papel das rádios e depois da TV na disseminação da mesma, a influência norte-americana na formação das orquestras brasileiras. 
 
No gênero, Big Bands paulistas é um dos melhores livros que li nos últimos anos. Acho que os francanos que amam a música e a cidade vão gostar de ler. É acima de tudo memória, esta que os brasileiros não aprenderam ainda a cultivar. Que se veja o destino do prédio da  AEC, onde por décadas a Orquestra Laércio de Franca se apresentou.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários