Para não ser julgado e ir a júri popular após a tragédia da avenida Paulo VI, ocorrida em outubro de 2015, o auxiliar-geral Cairo César Cruz, de 25 anos, está recorrendo da decisão do juiz Paulo Sérgio Jorge Filho. Seus advogados de defesa entraram com um recurso e esperam que seu cliente não responda pelas mortes da estudante Mariana Luiza de Sousa, de 19 anos, da balconista Bruna Cintra Justino, 20, e da desempregada Carolina Rodrigues Borges, 20, e pela tentativa de homicídio contra o estudante César Eduardo Gonçalves, 17. Não há prazo para que o juiz se pronuncie.
No documento, protocolado no processo na última semana, os advogados Abadia Neves Bereta e Robert José Corrêa alegam que há um excesso na acusação para Cairo responder por homicídio doloso na modalidade dolo eventual (quando o indiciado prevê o resultado de um crime, não quer o ocorrido, mas assume o risco de matar) e que o crime de trânsito deve ser tratado pela legislação especial e não pelo Código Penal. “Não é justo ou razoável promover a punição exacerbada do indivíduo como forma de acalmar os ânimos da sociedade”, escreveram.
Para seus advogados, o jovem já está pagando pelas três mortes, já que possui sequelas do acidente e sofreu um “grande dano” psicológico. “A aplicação da pena ao réu é desnecessária. Cairo até hoje não consegue falar no assunto e se nega a aceitar os fatos.”
Segundo a defesa do auxiliar-geral, “nada indica que o recorrente, sabendo que poderia matar seus acompanhantes, tenha assumido o risco de obter o resultado. Trata-se de uma fatalidade, ou melhor, um acidente, como disse a vítima César Eduardo Gonçalves... É possível perceber, no depoimento dele, prestado cerca de um ano após o evento, seu abalo de ordem psicológica ocasionado pelo episódio.”
Sobrevivente defende Cairo
Como forma de desclassificar o delito do qual Cairo é acusado, os advogados utilizaram um depoimento de César Eduardo. “Ele é uma pessoa que eu confio. Não colocou minha vida em risco. Não dirigia em alta velocidade, não era dado a bebidas alcoólicas”, informou o jovem.
Ainda segundo a defesa do auxiliar, o próprio César confirma que ele hoje sofre com debilidade física, nega os fatos e não se recorda do que aconteceu. “A vítima sobrevivente ainda mantém contato com Cairo e é primo das demais”, escreveram Abadia e Corrêa.
Para destacar que Cairo não quis provocar a tragédia, tampouco matar Bruna, Carolina e Mariana, os advogados informaram que o auxiliar-geral deixou um namoro de seis anos para estar com a estudante. Inclusive, enquanto se recuperava, ele estaria constantemente perguntando sobre ela. “A partir do dia 11 de novembro, Cairo começou a perguntar das pessoas, principalmente de Mariana, dizendo que queria vê-la, pois não se encontravam havia dois dias, demonstrando que havia perdido toda a noção dos fatos e se negava a aceitar o falecimento das vítimas.”
Nas tardes de quinta e sexta-feira, além da manhã de sábado, a reportagem do Comércio tentou contato via telefone com a advogada Abadia Neves Bereta. Porém, não atendeu ligações.
A tragédia
Na madrugada do dia 31 de outubro de 2015, após sair de uma padaria próxima à Unifran, Cairo César Cruz perdeu o controle do Fiat Linea que dirigia, invadiu o canteiro central e bateu em uma placa de publicidade e em uma árvore.
Com o impacto, as três jovens morreram. César Eduardo, que também estava no carro, sofreu ferimentos leves. Cairo foi socorrido, ficou 12 dias internado na Santa Casa e, um ano e nove meses depois, está recuperado.
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