'A Francal ameniza, mas não resolve o problema do setor'


| Tempo de leitura: 6 min
José Carlos Brigagão do Couto está próximo de completar dez anos como presidente do Sindifranca (Sindicato das Industrias de Calçados de Franca). Ele assumiu o comando em julho de 2008 e tem mais dois ano de mandato a cumprir.
Brigagão representa um polo formado por 1.015 empresas, sendo 467 que atuam diretamente na produção de calçados, e que empregam 22,2 mil trabalhadores. Nesta entrevista, ele fala dos desafios que o setor enfrenta para aumentar a produção e os postos de trabalho.
 
Qual avaliação o senhor faz da Francal?
A realização de uma feira sempre é boa para o setor, pois lança as tendências e novidades para a estação e, no caso da Francal, para o verão, que é a mais favorável às vendas. Além dos negócios concretizados, os contatos iniciados também são importantes. O pós-feira precisa ser muito bem trabalhado, mas uma coisa precisa ficar clara: a Francal não vai resolver o problemas de pedidos dos calçadistas, vai amenizar uma situação momentânea de aproximadamente três meses. O setor vem retomando o crescimento, mas a instabilidade econômica e política não deixa de ser uma preocupação e traz muita insegurança. Apesar das dificuldades, acredito que as vendas vão continuar crescendo. Nosso objetivo é conseguir repetir a produção de 2013, quando atingimos 39,5 milhões de pares para uma capacidade instalada de 40 milhões.
 
Qual é a produção atual?
A previsão para este ano é de que sejam produzidos 28 a 29 milhões de pares. Em 2016, perdemos dez milhões de pares. O nosso esforço é para que as empresas tenham plena empregabilidade e produção total na capacidade instalada.
 
O crescimento é possibilidade real ou apenas planos?
Acredito muito no aumento da produção e na abertura de novas vagas de emprego. O problema é que isto não depende apenas da boa vontade do empresário, do lojista e do consumidor. Depende muito das políticas públicas e das reformas que precisam ser feitas no País. A incerteza política atrapalha muito o mercado no momento em que a economia começa a reagir. Amanhã, não sabemos se o Temer vai ser presidente. Se fizer as reformas e resolver o problema político, acredito que possamos chegar ao fim do ano com números bem melhores do que no ano passado.
 
O senhor esteve em Brasília no mês passado para tratar da questão da desoneração da folha de pagamento. Como estão as negociações?
Fomos convidados pelo Senado Federal para fazer parte da mesa de debates sobre a desoneração. Apresentamos a situação do setor calçadista nacional e dos pólos produtores. Colocamos que não é possível querer mudar a regra no meio do jogo. Quando é fechado um pedido de exportação, a média de concretização de negócio é durante seis meses, depois tem a programação de entrega. Após a conclusão da etapa de negociação, o custo é feito considerando as despesas. Uma vez fechado o pedido, o cliente não aceita mudança no que foi combinado. Se no meio do processo, houver a reoneração da folha, o gasto vai aumentar muito. Tem empresa que vai ter uma despesa superior a R$ 50 mil por mês. Isto, não está previsto nos custos e vai trazer dificuldades. Defendemos que permaneça em 1,5% sobre o faturamento e, não, sobre os 20% da folha de pagamento, como o governo quer. Há possibilidade da mudança só ocorrer a partir de janeiro do ano que vem. Há alguma expectativa de que para os calçados o critério atual seja permanente, mas a pressão para a mudança é muito forte.
 
De que maneira o selo de Indicação de Procedência do calçado francano, lançado durante a Francal, poderá ajudar no aumento das vendas?
Fomos o primeiro segmento industrial do País a obter a autorização, em 2012, e, como era uma coisa nova no Brasil, não tínhamos uma referência para seguir. Por isto, demorou para avançar. Vamos começar o cadastramento das empresas agora. Nossa expectativa é de que as emissões dos selos comecem a ser feitas ainda este ano. A Indicação de Procedência atesta a qualidade do calçado produzido em Franca e os nossos diferenciais competitivos, como gestão, história e cultura e consciência social e ambiental. O selo vai agregar valor ao nosso produto e aumentar as vendas, mas os reflexos vão ser sentidos a médio e longo prazos. Não é da noite para o dia. Antes, será preciso fazer um trabalho de conscientização. O selo é o futuro da nossa indústria.
 
O que o empresário precisa fazer para vender mais?
A empresa precisa estar preparada do ponto de vista de gestão para enfrentar qualquer situação. Sempre cito o exemplo de planejamento estratégico que os militares fazer para enfrentar situações graves, como uma guerra. Nós estamos vivendo uma guerra diferente no Brasil, que é uma guerra econômica e política, que afeta em cheio nossa economia. É preciso ter uma gestão adequada levando em consideração estes fatores negativos. O empresário precisa produzir um calçado de alta qualidade, conter custos, enxugar despesas e acompanhar a moda e as tendências. É preciso estar atento ao desejo dos lojistas e dos consumidores. Tem que pesquisar o mercado e ouvir.
 
A necessidade de estar atento às tendências foi o recado passado pela Francal?
Sem dúvida nenhuma. A feira foi um termômetro importante e mostrou que, quem tinha o produto certo com preços adequados, conseguiu fazer bons negócios. Estandes que eram vizinhos tiveram avaliações diferentes sobre o resultado da feira. Quem não conseguiu bons negócios, possivelmente, pode ter errado na coleção, no preço, no material e, até mesmo, na abordagem aos compradores. São uma série de fatores que precisam ser analisados.
 
Funcionários de algumas fábricas fizeram greve este ano por melhores salários. Como estão as negociações dos empresários com os sapateiros?
Quando começamos as discussões, eu disse para o sindicato dos trabalhadores que esta negociação era a mais difícil, em decorrência da situação enfrentada pelo País. Passamos por uma crise econômica grave e por um momento político conturbado. A inflação está caindo e o desemprego aumentando. É um quadro muito atípico e precisamos ter cautela. Durante cinco anos seguidos, demos aumento real. A inflação do ano passado foi de 11,08%. Este ano, caiu para 4,69%, é o que estamos oferecendo. No ano passado, perdemos dez milhões de pares. Este ano, estão previstos de dez a 11 milhões de pares. Como é que vai acrescentar mais um custo no produto que enfrenta dificuldade de venda? Vai agravar a situação. No meio da negociação, ainda veio o problema da oneração da folha de pagamento. O clima é horrível para negociar. Os outros setores também não estão concedendo aumento real.
 
Mas tiveram fábricas que fecharam acordos pontuais de 7%...
Não são associados nossos. Fábrica grande foi apenas uma que fechou. Na última rodada de negociação no Ministério do Trabalho, quando o sindicato dos trabalhadores alegou que fechou cerca de 40 acordos individuais, pedimos a eles que nos mostrassem os contratos. Se realmente fecharam, me comprometi que reabriria as conversas com os empresários e defenderia este aumento. Eles não quiseram mostrar. Eu disse para registrar no mediador, que se tornaria público, mas eles não aceitaram. Na verdade, foram apenas 13 empresas que fizeram o acordo, entre as quais uma grande. O restante é empresa familiar, que não representam 1% da produção. Não temos como aumentar custos neste momento. As negociações estão suspensas e as fábricas já deram o reajuste de 4,69%, que é aplicado sobre o abono escolar, PLR e sobre o piso. Estamos aguardando uma decisão do sindicato dos trabalhadores se eles querem fechar o acordo nestas bases ou se preferem ir para o tribunal.
 
 

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários