Tenho uma alma antiga, destas que prezam os silêncios sacros de ambientes vazios, os ventos mornos nas janelas distraidamente entreabertas. Destas que carregam um romantismo arcaico, pleno de esperanças vãs e doces promessas implícitas.
Esta minha alma passeia por entre casebres antigos, decorados com esta praticidade singela das almas puras. E ela namora a luz do sol, que entra pelos vãos das telhas escuras no verão e sente no rosto as goteiras divertidas das chuvas no inverno.
E nestas ocasiões, esta minha antiga alma se aconchega e renova nesta comunhão orgânica com a natureza.
E também possuo esta alma atemporal, de vestidos esvoaçantes pelas escadarias antigas.
Desta alma antiga, toda repleta de nuances frágeis e travessias silenciosas ou de passos tímidos nas ruelas esquecidas.
Uma alma antiga, que também canta nas janelas floridas dos casarões em ruínas e corre nas verdes planícies sem fim.
Uma alma que atravessa os túneis escuros do tempo, levando apenas um coração repleto desta ingenuidade crível de alegrias vindouras.
E quando o sol se põe esta minha alma antiga também se recolhe com os seus grandes pensamentos tolos, soterrada de sentimentos todos.
E deixo-a vagar nesta linha tênue entre a luz que morre e a que se encontra na escuridão das estrelas recém-nascidas.
E minha alma antiga canta uma canção subconsciente de que andamos sós, apesar de todas as companhias. Sofremos sós, apesar de todo apoio.
E curamos sós, pois cabe somente a nós, este exercício solitário de apagar a nossa fogueira das dores, o nascer das pérolas da aceitação e florir dos próprios caminhos traçados.
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