No fim, só nós é que pagamos


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Não tem jeito: vivemos num país onde o espírito público não existe. Nossos representantes eleitos só buscam manter o status quo sem levar em conta os interesses dos que lhes deram o mandato e pagam os seus vencimentos e inúmeros benefícios. Para piorar, ainda buscam “engordar” o patrimônio avançando sobre os cofres públicos. Em tempos de crise econômica como os que vivemos nos últimos anos, não há quem proponha a redução dos benefícios de administradores e parlamentares. Assim, todos passariam a colaborar para reduzir o déficit público, permitindo ainda que o setor produtivo deixe de ser sufocado e retome o crescimento. Porém, o que se vê é bem diferente: qualquer plano de reforma passa sempre pela supressão de benefícios, aumento de tributos e achatamento dos vencimentos na inciativa privada. O setor público continua incólume (quando não aumenta ainda mais suas despesas).
 
Agora, o trabalhador pode receber uma nova “traulitada”: se a votação da reforma da Previdência naufragar no Congresso Nacional, a equipe econômica já trabalha com uma alternativa para cortar despesas e garantir o cumprimento do teto de gastos e a volta de superávits primários nas contas públicas: acabar com o pagamento do abono salarial. O benefício, que é pago anualmente aos trabalhadores inscritos no PIS/Pasep há pelo menos cinco anos e que têm rendimento médio mensal de até dois salários mínimos, custará R$ 17 bilhões neste ano. Tradicionalmente, era pago de julho a outubro para todos os 22 milhões de trabalhadores que têm direito. Desde 2015 o governo dividiu o pagamento em duas etapas, como forma de diluir o custo. 
 
O benefício também passou a ser pago proporcionalmente ao tempo de serviço, de maneira semelhante ao 13º salário — ou seja, atualmente varia de R$ 78 a R$ 937. O custo político do fim do abono salarial, porém, seria bem alto, uma vez que seus beneficiários são a camada mais pobre da população. Embora o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, considere ainda viável a aprovação das novas regras para aposentadorias e pensões no segundo semestre, depois da votação da reforma trabalhista, sua equipe tem em mãos uma série de medidas que poderão ser adotadas no caso de a proposta de reforma previdenciária ser desidratada ou mesmo não for aprovada. E por que não cortar benefícios (como “cotão”, gastos com dezenas de assessores, telefone, transporte e combustível, entre outros) dos daputados e senadores? E fechar de vez as torneiras da corrupção e cobrar tudo o que foi desviado? Com certeza, a economia seria muito maior. E, caso o regime previdenciário fosse comum, atingindo a todos, sem distinção, certamente quem produz ficaria menos sufocado.
 
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