A política brasileira é estranha. Depois do saudoso Tancredo Neves aliar-se a José Sarney, no já distante ano de 1985, conseguindo eleger-se presidente da República, mas sem conseguir tomar posse, nada deveria estranhar o brasileiro. Porém, Fernando Henrique Cardoso e o seu PSDB uniram-se ao DEM, anos depois, para conseguir a vitória e alcançar a governabilidade. Em sequência, o PT de Lula “abraçou” aliados inimagináveis diante do discurso do seu partido: o empresário José Alencar, em 2002, aproximou o petista do empresariado, tornou-se candidato a vice e foi fundamental para a vitória. Além disso, em seu governo Lula teve como “conselheiros” os então senadores Renan Calheiros e José Sarney (PMDB) e ainda pedia a opinião do ex-ministro Delfim Neto, ex-ministro da Agricultura em 1979 e do Planejamento de 1979 a 1985, no governo de João Figueiredo (o último da ditadura militar), depois de ter participado ativamente da vida política brasileira nos chamados “anos de chumbo” que duraram vinte anos.
Por isso, a decisão de Renan Calheiros de abandonar a liderança do PMDB no Senado (ele que também foi um dos interlocutores frequentes da ex-presidente Dilma Rousseff e, no episódio do impeachment, um dos pilares da ascensão de Temer), atirando contra o antigo aliado, não deve causar espanto. Os desdobramentos da decisão deverão ser sentidos nos próximos dias e devem preocupar sobremaneira o atual ocupante do Palácio do Planalto: Renan Calheiros, mesmo sendo alvo de mais de uma dezena de inquéritos no STF (Supremo Tribunal Federal), pode causar um estrago no mandato de Michel Temer. Um dos políticos mais influentes do País, o ex-presidente do Senado tem ascendência sobre grande número de parlamentares do partido que atualmente dá sustentação (e já foi comandado por ele) ao presidente no Congresso Nacional.
Ameaçado por causa das gravações de Joesley Batista, o presidente sofre um abalo quando o Congresso começa a apreciar um pedido para abertura de processo contra ele feito pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot, encaminhado pelo Supremo para que os parlamentares discutam e votem. A tranquilidade dos aliados de que o chefe da Nação teria maioria absoluta a seu favor nas duas casas legislativas mudou do dia para a noite. Mais uma vez, certamente Michel Temer terá que fazer concessões a Renan Calheiros (que já foi seu aliado de todas as horas) para conseguir o seu apoio e dos parlamentares que votarão como o senador determinar. É uma briga de cachorro grande que ninguém sabe como vai acabar. O problema é que, mais uma vez, o País volta a ficar em suspenso, ainda mergulhado numa crise que, pelo andar da carruagem, ainda está longe de ser contornada.
email opiniao@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.