Onde anda a verdade “verdadeira e única”, como diziam nossos avós e pais? Não me sai da memória o ministro do TSE, relator da ação de cassação da chapa Dilma/Temer, Herman Benjamin, produzindo voto baseado na realidade de provas investigadas pelo TSE, e sendo contraposto pelo ministro Gilmar Mendes, que presidiu o julgamento. Mesmo concordando com Herman, recusou-se a segui-lo: “se a chapa (for) cassada, o país (será) jogado numa outra crise, lançado a um quadro de incógnita”.
Gilmar paga o preço por defender o que acredita, ou em causas que referenda. Membros da Frente Associativa da Magistratura e do Ministério Público emitiram nota afirmando que ele “abandonou a toga” e assumiu “postura de comentarista político, incompatível a quem integra o STF” ao falar a líderes empresariais de Pernambuco. Na oportunidade, criticou a Lava Jato e chamou de “abusivas, investigações e prisões processuais decretadas pelo Poder Judiciário, inclusive pelo STF, a requerimento do Ministério Público”.
Seus pares o acusaram também, na mesma nota, de ser “porta-voz de interesses que (...) buscam, a qualquer custo, barrar avanços de investigações e punições (àqueles) que nas últimas décadas sangraram os cofres públicos do pais”. Ao que parece, “verdade absoluta”, nunca mais. É preciso entender que interesses escusos produzem vasta informação para impedir que “verdade verdadeira” prevaleça. Recomendo assistir ao documentário “Arquitetura da Destruição”, de Peter Cohen, disponível no Youtube (https://www.youtube.com /watch?v=gDqGT4xepjQ&t=4s). Hoje, maioria apenas repassa, colaborando para que inverdades e factóides prevaleçam.
Criança, quebrei a vidraça de um vizinho com um bolada. Podia ter calado, mas contei a meus pais. Após vigoroso puxão de orelha — não pelo vidro quebrado, mas por não ter contado imediatamente, o que poderia levar o vizinho a crer que meus pais não me educavam —, lá fomos à casa dele. Simples olhar severo de papai bastou: “quebrei o vidro de sua janela. Desculpe”. Foi como tirar o peso de caminhão carregado das costas. A gente aprendia, dia após dia, que só a verdade convence mais. Confessava e pagava o preço do erro. Fiquei sem gibis e matinês de domingos por um mês.
Contar sobre, hoje, faz diferença? Aqueles eram tempos de valores morais, prática irrestrita do caráter. Dinheiro encontrado na rua tinha que ser devolvido. Quem perdia, tinha chance real de recuperar. Nos Correios, seções de “achados e perdidos”, rádio e jornal. Também as redes sociais da época — mercearia, padaria, entregador de leite, amigos reais — funcionavam. Se ninguém reclamasse a perda, doava-se. Hoje, entretanto, jovens, adultos, autoridades e políticos, riem. Achado não é roubado. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Luiz Neto
Jornalista, mestre cerimonialista, tutor de Expressão Escrita, Fala e Gestual - falecomluizneto@gmail.com
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