O ano era 2006. Rodrigo Capricio era um jovem como tantos outros, com muitos planos, com interesse em festas, com uma energia invejável e com paixão pelos esportes e se dedicava, especialmente, ao skatismo. Rodrigo não imaginava que numa tarde de novembro daquele ano, sua vida mudaria completamente.
Era sábado, dia propício para um churrasco com os amigos. Rodrigo estava indo para a casa da tia, onde pegaria dinheiro para comprar cerveja, carne, carvão...Ao chegar perto da casa, duas mulheres desesperadas, vizinhas de sua tia, o abordaram pedindo ajuda. Eram a mãe e a avó de um garoto que estava brigando e levando a pior. Elas pediram que Rodrigo o ajudasse. Ele não titubeou. Sua intenção era apartar a briga, mas a situação era mais séria do que parecia. “Queria só tirar ele de lá. Dei uma chave de braço, caí de joelhos e quando estava tentado me livrar, levei três facadas, duas nas costas e uma na barriga. Na hora senti um choque na minha cabeça. Percebi que algo estava muito errado. Não conseguia sair do lugar. Minhas pernas não se moviam”, contou.
Rodrigo foi socorrido e passou por delicada cirurgia. Uma das facadas causou uma lesão em sua coluna. Rodrigo não voltaria a andar. “A gente sabe o que está acontecendo, só que às vezes, não quer acreditar”, disse ele, que enfrentou um período longo e difícil de recuperação. “Acredito que não tem nada pior do que você ficar doente e não ter o que fazer. Sempre fui da galera do skate. Minha vida era voltada pro esporte. Não conseguia ficar parado. Mas comecei a pensar, desesperado, que não teria mais essa vida”.
A revolta
Com isso veio a raiva. A vontade de se vingar. “Eu estava cego de ódio. O que tinha dentro de mim era insuportável. Só pensava nas coisas que não ia mais conseguir fazer. Não poderia mais andar de skate, pedalar e jogar basquete. Gostava muito de esporte e de repente não podia fazer mais nada”. Com o tempo, Rodrigo percebeu que tinha que superar o trauma. Não voltaria mais a andar, mas não poderia mais se entregar à raiva e à tristeza, pois isso o estava consumindo. Foi então que começou a reagir. Não foi fácil, mas foi constante. Independente de limitações e condições, decidiu que tinha que ir além. Foi então que resolveu encarar a rua. Todos os dias saia um pouco. Ia de cadeira de rodas até a esquina. No outro, até a próxima rua. Com o tempo voltou a frequentar a casa dos amigos. “Pode parecer fácil, mas não é. Cada pequena atitude, depois de uma coisa tão séria como essa, tem muita importância. Você vai superando os obstáculos aos poucos”, disse ele.
Nas sessões de fisioterapia, Rodrigo conheceu um grupo que lhe contou sobre um time de basquete para paratletas que estava sendo formado. Ele viu ali uma oportunidade de voltar a praticar esporte. “Foi a primeira vez que vi tanta gente de cadeira de rodas. Foi uma experiência muito legal. Conheci o Rafael. Ele foi minha inspiração. Eu via como ele era independente, como era rápido com a cadeira de rodas dele. Isso me estimulou muito. Pensei: vou conseguir fazer isso também”.
O basquete deu ao francano agilidade com a cadeira, equilíbrio, controle do tronco e vontade de superar as barreiras a cada dia. “Qualquer esporte relacionado à cadeira te ajuda a ter mais agilidade. Difícil é quando você fica parado, esperando o tempo passar. Tem gente que culpa a cadeira, mas que culpa a cadeira tem?”, reflete Rodrigo.
Algum tempo depois, o time de basquete acabou, mas Rodrigo nem teve tempo de lamentar. Logo em seguida, ele foi convidado para participar da equipe de paratletismo que treinava no Poli Esportivo. Rodrigo, claro, topou. Ele mal começou a treinar e já participou dos Jogos Regionais que aconteceram em Franca. “Competi pelos 100 metros com a cadeira que eu tinha mesmo. Ganhei uma medalha de bronze no dardo”, disse ele.
Em 2010, o técnico paralímpico Inaldo Rudoff Wirz entrou para equipe e começou a treinar os paratletas como profissionais. Em 2013, Rodrigo estava pronto e foi convocado para participar de uma competição em Araraquara, na qual correria pelos 100, 200 e 400 metros, mas foi barrado por não ter a cadeira própria para a competição. Frustrado com o impedimento, Rodrigo começou a pensar se era aquilo que queria para sua vida. “Eu estava treinando sério, dando meu melhor pra não poder competir por falta de equipamentos?”, disse o paratleta. Mas ele conseguiu ajuda do Departamento de Esportes e recebeu uma cadeira de rodas própria para a competição que custava R$ 30 mil.
A cadeira chegou dois dias antes da competição. “Andei pelas ruas do bairro com um amigo, para me acostumar com a cadeira nova. Treinei somente esses dois dias e fui pra competição. Chegando lá, o rapaz que correria junto comigo, já era bem mais experiente. Em uma determinada curva, só escutei ‘vai corre, corre, corre’ e assim eu fiz. Coloquei mais força no braço, fui acompanhando o rapaz e consegui ganhar dele por um palmo de distância”, disse Rodrigo.
Foi o estímulo que faltava. Depois disso, o paratleta voltou a se dedicar todos os dias aos treinos. O resultado não poderia ser outro. Rodrigo soma hoje 25 medalhas e um troféu. Em abril desse ano, na Corrida Nacional do Circuito Caixa, Rodrigo conseguiu o tempo de 18min18s, ganhando assim, o título de paratleta de índice nacional. “Quero conquistar um lugar entre os melhores cadeirantes do mundo. Mas não penso em uma ‘rodada maior que a roda da minha cadeira’, mas o que for de merecimento, é o que desejo pra mim. Quero continuar crescendo. Não miro lá na frente. Conforme vou chegando, vou ampliando minha visão. Já consegui chegar ao índice nacional, quero ficar entre os melhores do ano e depois entre os melhores do Brasil”, disse ele.
Companherismo
E em meio à sua luta, Rodrigo reencontrou uma antiga amiga da adolescência com quem é casado há nove anos. “Nos conhecemos quando eu tinha 14 anos e ele 19”, contou Vanessa. “Ele até me convidou para sair naquela época, mas eu sabia que não ia dar em nada”, disse ela.
Eles se afastaram e só voltaram a se reencontrar dois anos depois que Rodrigo tinha sofrido o acidente. “Na época, o auge das redes sociais era o Orkut. Certo dia, ele pediu uma solicitação de amizade e começamos a conversar”.
O começo do namoro não foi nada fácil. “Enfrentamos muitos preconceitos e medos. Ouvimos muitas coisas”, lembrou Vanessa, “mas o importante é que superamos tudo isso juntos”, disse. “Com ela aprendi a ter paciência, ela me ensinou a ter. Foi uma troca, foi recíproco. E isso é até hoje. Nós ouvimos um ao outro. Isso faz toda a diferença no nosso relacionamento.”
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