'A maioria das vítimas é o jovem de nossa sociedade'


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'Dos assassinatos deste ano, 80% dos autores e vítimas já possuíam algum envolvimento com o crime ou uso de drogas'
'Dos assassinatos deste ano, 80% dos autores e vítimas já possuíam algum envolvimento com o crime ou uso de drogas'
Em dez anos, Franca não registrava índices tão elevados de assassinatos. Em 160 dias, foram 16 assassinatos. Ou seja: a cada dez dias, uma pessoa é morta na cidade. Crimes por razões que vão desde acerto de contas e término de relações até vinganças decorrentes de brigas têm ocorrido com frequência e são alvos de investigações da DIG (Delegacia de Investigações Gerais). 
 
À frente da especializada, está o delegado Márcio Garcia Murari. Com uma equipe reforçada desde abril para tentar encontrar os assassinos e esclarecer os sete crimes que ainda não tiveram seus autores identificados, a DIG tem a missão de driblar a falta de informações e a lei do silêncio que impera em algumas regiões da cidade enquanto investiga outros crimes, como roubos e tentativas de homicídio. O último caso, por exemplo, também está em alta. Foram 13 ocorrências de janeiro a abril. 
 
Para falar sobre essa violência crescente, Murari recebeu a reportagem do Comércio na última semana e garantiu: “A DIG trabalha firmemente para esclarecer os assassinatos ocorridos nestes seis primeiros meses do ano”. 
 
Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, os índices registrados na cidade neste ano são os maiores registrados na década. Quais são as principais causas de homicídios em uma cidade como Franca?
Envolvimento com drogas e criminalidade e problemas de relacionamento como nos crimes passionais têm sido a maior razão dos homicídios na cidade. Além deles, há as desavenças pessoais que também colaboram para que esses assassinatos aconteçam.
 
Esses crimes passionais têm ocorrido com frequência em homicídios e tentativas na cidade e também na região. Na maioria deles, a vítima já sofreu algum tipo de ameaça ou agressão. Qual recomendação o senhor faz?
Procurar sempre a polícia e, após conseguir a adoção das medidas judiciais que afastem o agressor do lar, a vítima deve realmente ficar longe do agressor. Falo isso porque, em alguns casos, há a tentativa de reconciliação e, depois, esses crimes podem acontecer. Observamos que as mulheres precisam de mais apoio para não ficar à mercê de quem possa lhe fazer mal. Elas precisam estar atentas, pois, caso ele descumpra com o que foi determinado, em qualquer sinal, a polícia deve ser acionada.
 
Pouco mais de 160 dias de 2017 já foram e Franca registrou 16 assassinatos. Isso representa uma média de um homicídio a cada 10 dias. Há alguma explicação para o aumento da violência?
Não há explicação, pois é um crime de difícil prevenção. É muito particular, pois, a exemplo deste ano, tivemos desde casos passionais, dívidas com traficantes e até desavenças entre moradores de rua por causa de pedra de crack. Não há como prevenir de outra forma senão dando exemplos: encontrando os responsáveis e prendendo-os para mostrar que não há facilitação e que o crime ficará impune. Prova disso é que, dos 16 homicídios, já esclarecemos nove. Em alguns dos casos, os autores foram presos em flagrante pela Polícia Militar e, em outros, foram indiciados ou capturados através de investigação policial. 
 
Dos 16 homicídios registrados, metade se concentra na zona Sul de Franca. Cinco deles foram no Complexo do Jardim Aeroporto e aconteceram de formas semelhantes. Há algum tipo de “acerto de contas” que justifique tamanha violência naquela região, em que as pessoas pouco se importam com o horário e local para matar?
Nenhum desses crimes tem ligação, mas, tendo em vista as dificuldades que temos em obter informações naquela região, acreditamos que seja um fator que possa encorajar algumas pessoas a praticar os homicídios à luz do dia e que nunca será pega. Há pessoas de bem que fazem delações anônimas e isso nos ajuda. Estamos, enfim, conseguindo a confiança desses cidadãos para darmos uma resposta aos crimes que ali acontecem.
 
Em nove desses crimes, os assassinos usaram armas de fogo. O que o senhor pensa a respeito da legalização do porte de arma?
Sou totalmente contra. Quem usa arma hoje em dia está contra a lei. Mas, se houver autorização para o cidadão de bem ter esse porte, esse objeto então poderá ser usado em uma briga de trânsito, o filho pode pegá-la dentro de casa e disparar acidentalmente e em outras situações. E não penso que é só porque você tem porte de arma que está apto ou tem coragem para usá-la. Não é porque você está armado que conseguirá reagir. Fora que, em alguns casos de pessoas que já têm essas armas em casa, elas foram subtraídas e utilizadas por bandidos no momento de cometer um delito. 
Quais os perfis mais comuns de vítima e assassino?
Dos assassinatos deste ano, 80% dos autores e vítimas já possuiam algum envolvimento com o crime ou uso de drogas. Além deles, há os casos passionais. A maioria das vítimas é o jovem da nossa sociedade, a exemplo do último assassinato, ocorrido na Vila Santa Terezinha no dia 9 de junho, quando o jovem Elvis Luã Lopes Barbosa, de apenas 26 anos, foi morto com tiros no meio da rua.
 
A DIG de Franca possui índices positivos quanto à resolução de homicídios. Em 2015 e 2016, cerca de 80% dos crimes foram elucidados. Até este mês de junho de 2017, dos 16, nove já estão esclarecidos e os outros estão se encaminhando para uma elucidação. Qual a maior qualidade que se vê no setor de homicídios para essas resoluções?
Disposição dos investigadores. Eles possuem uma larga experiência, principalmente no Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa, e não ficam vinculados a horários e dias da semana para trabalhar. Além disso, comparecem aos locais de crime e, imediatamente, iniciam as investigações.
 
E qual a maior dificuldade encontrada pelos policiais nos casos que seguem sob investigação?
Sempre é a informação, pois, como disse, a maioria das vítimas e assassinos possuem envolvimento com o crime, o que gera uma dificuldade em obter dados que ajudem no esclarecimento. Isso demanda tempo e obter confiança das pessoas e até das testemunhas que assistiram ao crime, mas temem participar do inquérito e do processo.
 
Além da rotina e da crescente violência, há a falta de efetivo. A Polícia Civil nada contra a corrente? O que a comunidade pode fazer para ajudar? 
Não enxergo assim, pois a falta de efetivo é um problema estrutural do País e até mesmo mundial. Nunca teremos um policial por cidadão. O crime sempre existiu e continuará existindo. O que tentamos fazer aqui na DIG, onde trabalhamos com os crimes mais violentos, é dar uma resposta satisfatória à sociedade indiciando e prendendo os responsáveis. Temos um bom índice de esclarecimento de roubos, latrocínios e homicídios. Não adianta lamentar. O que resolve é trabalhar com o que temos. Acredito que, hoje, trabalho com policiais excelentes e que não ficam se lamuriando.
 
Franca está em 43º lugar no ranking do Atlas da Violência feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo esses dados, foram 29 assassinatos em 2015. Os roubos e furtos também têm crescido. O que falta para a cidade estar entre as 30 mais pacíficas do País? 
Franca tem quase 400 mil habitantes e, lamentavelmente, a criminalidade está inerente ao seu crescimento e isso assusta os moradores. Por essa razão, devemos tentar combatê-la. Temos de encontrar e indiciar os responsáveis por esses delitos. As polícias Civil e Militar trabalham e prendem, são atuantes. É só olhar o número de pessoas presas no CDP (Centro de Detenção Provisória), Fundação Casa e cadeias femininas. Mas a legislação brasileira não colabora. É branda e não intimida aquele que mata ou comete outros crimes. 

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