A violência no Brasil já atinge níveis endêmicos, causando a cada ano mais mortes do que a maioria dos conflitos armados mais recentes, como os verificados na Síria, Afeganistão, Iraque e outros países da África. Aqui, se morre por um par de tênis, por um aparelho de telefone celular e até por causa do fim de um romance. A sensação de segurança há muito se tornou rara, principalmente em grandes centros. Muitos brasileiros já não se assustam mais com o que acontece em nossas ruas. A violência, principalmente a ligada ao crime (organizado ou não), banalizou-se. Poucos reagem com indignação diante da morte de cidadãos ou policiais, enquanto há uma gritaria geral quando as posições são invertidas. Vários policiais já foram afastados em São Paulo por causa de mortes não explicadas e que extrapolam a questão da segurança. No Rio de Janeiro, também.
Quando os agentes que são treinados para promover a defesa do cidadão se tornam vítimas, quase ninguém se manifesta, a não ser a própria corporação à qual pertence a vítima. Neste sábado, a morte de mais um agente da lei no Rio de Janeiro “engordou” mais ainda este ranking: o policial militar Ewerton Hudson Bispo da Rocha morreu ao reagir a um assalto no início da manhã, em Nilópolis, na Baixada Fluminense. O cabo era lotado na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) Parque Proletário, na Penha, zona zorte do Rio. Com o caso, o número de policiais mortos no Rio sobe para 81 em 2017, ultrapassando os 77 registrados em todo o ano passado. É uma situação que precisa encontrar um paradeiro: os números são preocupantes, tanto quando as vítimas são policiais quanto quando são inocentes.
Nos dois Estados mais desenvolvidos do País (SP e Rio), a morte de policiais em ação só cresce. Mas fora, também. Caso sejam surpreendidos por marginais usando farda, fatalmente agentes de segurança são mortos sem que possam pelo menos se defender. Não há apelação e muito menos condescendência. Os fatos se repetem — na última quinta-feira, o PM Nilton Carlos Alves de Oliveira, 55, foi morto a tiros ao reagir a abordagem de assaltantes em Brás de Pina, na zona norte do Rio — e não se vê qualquer manifestação daqueles que usam o escudo dos direitos humanos para defender as vítimas quando os policiais são os agressores. Quando é o contrário, muitas vezes não há nem um registro nas redes sociais ou nos órgãos de imprensa. É preciso que o brasileiro volte a se indignar com a perda de qualquer vida, seja ela de cidadãos, seja de bandidos, seja de policiais. Do contrário, a situação pode se tornar incontrolável e, por isso mesmo, incontornável, deixando-nos presos intramuros, com receio até de ir à esquina comprar pão. O brasileiro não merece passar por isso.
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