Ela vem do México como as dálias, as magnólias, as margaridas, os lírios azuis. É tão endêmica como o cepasuchil, flor amarela de haste longa que ocupa lugar importante no singular Finados daquele país, celebração totalmente diversa da nossa. Estou falando da flor à qual os espanhóis chamaram nochebuena, e os nativos ofereciam como símbolo de vida nova para os guerreiros que morriam. Na língua nahuatl era cuetlaxochitl, que significa "flor de couro": a metáfora se construía por conta da pele ainda ensanguentada dos animais esfolados. No Brasil seu nome mais comum é bico-de-papagaio.
Ela vem do México. País de artesanato multicor, polifonias, apimentada culinária, vestígios de impérios - asteca, tolteca, maia, inca. De cavernas imensas, pinturas rupestres, praias de areias brancas que franjam o mar turquesa. De sol escaldante. De palavras polissílabas: Cacahuamilpa, Justlahuaca, Huatulco, Papaloacan, Usumacinta, Patzcuaro, Michoacán. De terras vulcânicas que urram no parir o fogo de suas entranhas.
Ela vem do México. Espaço onde ainda se mantêm as pirâmides do Sol e da Lua, em Teotihuacán; as ruínas de Oaxaca e Palenque; as construções polissêmicas de Chichen-itza; e onde pulsou uma Tenochtitlán, terra da águia e da serpente de fogo, o centro imperial antes que Cortez ali chegasse.
Ela vem do México. Inspiração para a escrita de Juana Inés de la Cruz, Juan Rulfo, Alfonso Reyes, Octávio Paz, Carlos Fuentes, Carmen Boullosa, Angeles Mestrela; para os murais de Rivera, Siqueiros, Orozco; para o surrealismo da intensa Frida Khalo.
Ela vem do México. Terra que ecoou primeiro as canções de Agustin Lara (Pensa em mi); Gonzalo Curiel (Vereda Tropical); Alberto Dominguez (Perfídia); Consuelo Velasquez (Bésame Mucho).
Ela vem do México. De onde se exportaram para o mundo a baunilha, o abacate, o amendoim, o tomate. E o chocolate/ xocoatl.
No período de colonização da América, missionários espanhóis, encantados com o esplendor sazonal da cuetlaxochitl, começaram a usá-la nas celebrações litúrgicas de dezembro. E enfeitando as primeiras igrejas do Novo Mundo para o Natal, batizaram como nochebuena à cuetlaxochitl. Consideradas simbólicas pelos frades, por conta de sua metamorfose, foram cultivadas nos mosteiros. Assim permaneceram no seu lugar de origem até meados do século XIX.
Foi Joel Robert Poinsett, embaixador dos Estados Unidos no México, de 1825 a 1829, o responsável por tornar conhecida a nochebuena em seu país e, depois, em quase todo o mundo cristão. Ele a descobriu em Taxco, a espetacular cidade da prata, quando visitava a Igreja de Santa Prisca. Encantou-se; levou mudas para sua casa na Carolina do Sul e jardins botânicos norte-americanos e europeus. A admiração do embaixador pela flor rendeu a esta o nome botânico de Poinsetia.
Eu tenho um pé de poinsetia ou nochebuena ou flor-do-natal ou bico-de-papagaio. Nesta época do ano ele vai se pintando paulatinamente de vermelho. Até o início de maio permanece completamente verde; mas por volta da segunda semana é possível perceber que as extremidades das folhas começam a ganhar manchas encarnadas que vão aumentando dia a dia até que se tornam completamente chamejantes, nenhuma folha verde é percebida. Tal fenômeno me intrigava. Pois se é no estival dezembro que vemos a flor por toda parte, nas floriculturas, varejões e barracas, por que a minha (e a de outros que a cultivam em jardins) só florescia no inverno?
Descobri esta semana que as que temos no verão em pequenos vasos são produtos submetidos a estresse nas estufas dos que comercializam a espécie. Mantida na escuridão até final de outubro, os vasos são então expostos à claridade intensa e a uma temperatura que fica na média dos 15 graus. Confundida pelo ambiente artificial, a planta inicia o processo de ruborização que faz dela um espetáculo para a vista. O curioso é que a flor, na verdade, é bem pequenina, de cor amarela, como se fosse um miolinho. O que chamamos de flor são as folhas verdes transformadas em vermelhas.
Busco na natureza inspiração para algum entendimento sobre o mistério de nossa humana existência e condição. A onipresença do verde seria entediante, não fosse a certeza de que, chegada a hora, o sanguíneo da vida tinge de alegria o que parece imutável e acena alvíssaras aos olhos e ao coração.
“Tudo tem seu tempo”. Palavras do Eclesiastes.