Tive quatro semanas de “férias” forçadas por mudança de endereço residencial, tempo de alegria e curtição pela nova casa; enjoos e dissabores com o País que gostaria de ver, ao menos, se portando como nação de gente grande, não pátria de gente miúda capaz de vender a mãe por poder e dinheiro fácil. Sem escrever, mas falando pelos cotovelos a quem teve paciência para me enfrentar em infindáveis debates sobre ética, lealdade, justiça - justiça? - e vergonha na cara. Foram amigos de verdade que apenas ouviram, compreendendo que se eu não pusesse pra fora a vergonha de ter votado em Aécio Neves, poderia enfartar. (E não venham petistas me taxar de nada. São Aécios, Lulas e os outros, de todos os partidos, exatamente iguais à gente que vota mal e avaliza a bandalheira).
Historiadores terão trabalho desumano para contar a história brasileira às próximas gerações — ou, ao menos, à parte interessada, já que as crianças são imagem e semelhança de genitores que furam filas, param em vagas de idosos e deficientes físicos; jogam latas e o que estiver à mão, sem uso, pela janela do carro; e ensinam, sem falsos pudores, que quem rouba de ladrão tem cem anos de perdão. Pior é saber que quem grita sozinho, não faz diferença. Escrevo aqui há nove anos, e batendo na mesma tecla: sem organização, persistência e unificação de discurso, não chegaremos a nada. Fui e continuo sendo voz que clama no deserto, e em deserto, sabe-se, não há eco. Movimentos de rua deixaram de ser porta voz do povo. Tornaram-se defesas de bandeiras individuais de alguns e seus projetos de poder. Já de há muito, o povo — homens e mulheres que trabalham duro e derramam suor para sobreviver — foi colocado de lado, chamado somente para pagar contas que não fez.
Hoje, maioria de nós, engessados pelas redes sociais, tornou-se compartilhador de merda enlatada produzida por marqueteiros e jornalistas “de portas de cadeia” — e com o nosso dinheiro — para confundir, nunca para explicar. Chacrinha, o Velho Guerreiro, anunciou isso até morrer. Como eu disse, gritar sem organização, persistência e unificação de discurso, não produz resultados. Ainda assim, até para estimular a compreensão e o desejo de fazer diferença, convido meu leitor a ouvir podcast produzido pela rádio USP, contribuição à tentativa de entender, historicamente, o que se passa no Brasil de hoje.
O cientista político Edison Nunes e o professor de Direito Constitucional Marcos Augusto Perez discutem o Brasil que consideram “em meio a tempestade” definida por desrespeito à Constituição e, no auge de “conflito entre instituições”, causado por guerras entre políticos na defesa de interesses próprios e distantes das necessidades da população. Vale a pena. Está em http://jornal.usp.br/atualidades/radio-usp-debate-a-crise-politica-no-brasil-atual/
Luiz Neto
Jornalista, mestre cerimonialista, editor, tutor e mentor de fala e gesto - luizneto@luiznetocomunicacao.com.br
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