Uma bomba foi detonada em abril, quando o Jornal da USP publicou uma reportagem sobre a homeopatia.
O texto era sobre a pesquisa da veterinária Clarice Vaz, que constatou um baixo prestígio da homeopatia em faculdades de sua área. Via de regra, a prática é ensinada em disciplinas optativas.
A reação ficou por conta do biólogo e professor da USP Beny Spira, especializado em genética e biologia molecular de bactérias. Em seu artigo de 15 de maio, na mesma publicação, Spira não reluta em classificar a homeopatia como “uma das mais manjadas pseudociências”.
Na sequência, em 19 e 22 de maio, foram publicados os artigos da própria Clarice Vaz e do professor de homeopatia da Faculdade de Medicina da USP Marcus Zulian Terixeira como resposta a Spira.
Vaz pontuou que a discussão poderia ser analisada de um ponto de vista filosófico e não puramente científico. Zulian escreveu que a homeopatia, ao contrário do que disse Spira, não era uma farsa, e que, para quem se dispusesse a ler, haveria dezenas de artigos científicos que poderiam servir de base para quem quisesse estudar sobre o tema.
A guerra entre defensores da homeopatia e seus detratores não é nova. A modalidade foi criada final do século 18, pelo médico alemão Samuel Hahnemann.
À margem da medicina “convencional”, ela resistiu e até prosperou. Hoje é reconhecida como área de atuação de médicos, veterinários, dentistas e farmacêuticos.
Para Vaz, um dos problemas que a homeopatia enfrenta hoje é a falta de legitimidade. “É algo que só pode ser dado pelos outros, não por quem a pratica.”
Segundo ela, o cabo de guerra para definir quais disciplinas serão dadas nas faculdades faz com que o lado mais fraco saia perdendo. E isso, de alguma forma, acaba sendo refletido na sociedade.
Para Vaz, outros profissionais muitas vezes não olham para a homeopatia com respeito, mas sim com “condescendência”.
“Em qualquer área, é necessário separar o joio do trigo. No caso, o que é ou não eficaz, tanto na medicina convencional como na homeopatia”, afirma Vaz. Ela diz que é possível ter o melhor das duas áreas no sistema público.
O problema, no entanto, é a falta de financiamento para pesquisas da área, diz Nilson Benites, professor de medicina veterinária da USP que trabalhou com Clarice Vaz.
“Quando a ciência evolui, surgem formas de abordar o problema com novas e velhas ferramentas. Muitas vezes o ego de cientistas fica abalado porque eles acham que não precisam de determinado conhecimento que não pertence à área deles”, afirma. “No caso da homeopatia, e também em outros, esses cientistas tendem a apontar defeitos e dizer que aquele trabalho, aquela cura, não é nada.”
Segundo Benites, a questão é que médicos e cientistas não não sabem lidar com os “buracos” em suas áreas de atuação.
Para o biólogo Beny Spira, que escreveu a réplica ao texto de Vaz, os “buracos” da ciência também são a explicação para que as pessoas procurem interpretações sobrenaturais para o mundo e acreditem em horóscopo, por exemplo.
“Parece ser algo inerente ao ser humano. Em geral, as pessoas não acreditam que a ciência é o melhor guia para conhecer o universo e acabam buscando alternativas.”
Diagnóstico
Vaz e Spira concordam em ao menos um ponto homeopatas quase sempre levam vantagem na atenção dada ao paciente.
“Nessa discussão, o problema acaba nem sendo a metodologia, mas sim a ideologia. A questão humana acaba sendo deixada de lado. E também acabamos menosprezando outras partes importantes da prática médica, como a anamnese”, diz Vaz.
“As pessoas querem ser bem tratadas. O médico mal te escuta, pede exame e manda embora. O homeopata, se age como deveria, fica uma hora com o paciente ou até mais. Ele pergunta sintomas físicos, psicológicos... O paciente sai de lá 50% curado. Às vezes o fato de funcionar ou não o medicamento nem é o mais importante”, diz Spira.
Segundo ele, a parte “errada” é não informar que a melhora, caso exista, é por causa do efeito placebo.
Essa noção é corroborada por alguns grandes estudos na área. Um dos mais famosos, da revista médica “Lancet”, de 2005, conclui que os estudos de remédios homeopáticos, quanto mais bem feitos e quanto maior o número de participantes, mostram que o efeito da preparação estudada é mais próximo do placebo.
Ao menos sete meta-análises foram feitas pelo grupo Cochrane com o objetivo de avaliar a eficácia de tratamentos homeopáticos (para asma, síndrome do intestino irritável e gripe, por exemplo).
Elas apontam que ou não há efeito significativo do tratamento homeopático ou que os estudos que apontam benefício têm baixa qualidade.
Apesar do baixo status de evidência e dos questionamentos de incompatibilidade da homeopatia com o conhecimento científico atual, para Antonio Carlos Lopes, professor titular de clínica médica da Unifesp há espaço para a prática no cuidado dos pacientes.
“Não dá para negar que a homeopatia tem ação em rinite, prisão de ventre, alergia, e dores não muito importantes”, diz. “O que não pode é usar homeopatia para doença grave, como tumor no osso, pneumonia.”
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