Não vou dizer que cheguei a uma pequena cidade mineira entre morros e corri para o mercado municipal, instalado no prédio mais antigo do centro. Não, eu até fui, mas eu só queria comprar banana prata e o mercado estava a uns vinte passos da pousada. Também não foi assim: primeiro, eu queria muito tomar um café decente e perguntei à dona da pousada se tinha café e ela me disse que tinha café fresco e sem açúcar - nem acreditei. Estava tão bom que fui atrás do pó desse café, que é de Brazópolis, e muito famoso pela região do Sul de Minas. Sim, essa conversa fácil que se desenvolveu ao lado de uma garrafa de café fresco e de um bolo de banana incrível, cuja receita trouxe comigo, foi que me levou ao mercado municipal da cidade de Paraisópolis.
Encontrei e peguei as bananas que seriam nosso alimento (meu e de meu marido) durante a longa caminhada do dia seguinte. Mas algo diferente chamou minha atenção. Voltei-me para a senhora da banca e reparei nos tomates de árvore que ela vendia. Já tinha visto fotos, principalmente de uns, meio amarelados, algo alaranjado, mas vermelho daquele tom, tão vivo, lindo, ainda não tinha visto. O formato é parecido com o tomate rasteiro ou um tomate pera bem grande. Mas a cor é que realmente fisga nosso olhar. Por ali ele é bastante comum, não é cultivado em larga escala, é coisa de quintal mesmo. A árvore de pequeno porte sem pragas relevantes e sem necessidade de grandes cuidados no cultivo, garante ao tomate de árvore um lugar ao sol nos quintais mineiros.
Gosto demais da definição de Harold Mcgee quanto ao tomate ser considerado fruta, porque insistimos em achar estranho, parece–nos que o tomate tem uma natureza oculta que a gente não aceita. Ao dizê-lo fruta, deveria estar instalado na fruteira e nós insistimos em alojá-lo na geladeira. E não é nada disso, melhor assim: “As frutas culinárias se distinguem das hortaliças por uma característica principal: estão entre as poucas coisas que o ser humano está naturalmente destinado a comer. Muitos vegetais projetaram suas frutas de modo a apelarem aos sentidos dos animais. Essas frutas são os doces e os refrigerantes do mundo natural”. Dito dessa forma, a gente entende que essa fruta culinária se fez vermelha, polpuda e atraente apenas para que pudesse se dispersar por aí, e que estar na geladeira ou na fruteira pouco importa, ela serve a “culinária”, aliás, como temos feito desde 3.500 a.C.
No caso do tomate de árvore, ele é ainda mais insinuante. Seu sabor marcadamente agridoce recolheu de vez os preconceitos e, às vezes, lembra goiaba. Tem toque de maracujá, mas a casca é amarga e deve sempre ser descascado. Quanto à culinária, é bom abrir o leque porque vai tão bem na salada quanto na compota. Experimentei no mercado mesmo, mas comprei apenas as bananas - era delas que precisávamos.
Saí do mercado quando o dia, já indeciso, cedia à noite. Apressei o passo. Novamente veria a lua cheia escalar os morros de Paraisópolis.
Indecisa, não sabia se devíamos voltar ao antigo vale de visita passada, vê-lo novamente inundado de prateado ou se aceitávamos o que a vida tinha agora oferecer.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.