Quarta-feira, 17 de maio. O relógio marcava 19h30. A casa estava lotada, mas parecia ser mais um dia de rotina normal na Câmara Federal. Adérmis Marini (PSDB) abriu a sessão como presidente interino. Ele pediu a palavra e aguardava a vez para falar na tribuna.
De repente, alguém deu o alerta. Todos os deputados sacaram seus celulares para confirmar a informação que havia caído como uma bomba no plenário. A bancada da oposição comemorou aos gritos. Os governistas ficaram perplexos. Adérmis não imaginava, mas estava no meio do terremoto político que estremeceu Brasília. A delação de Joesley Batista tornava-se pública. O presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ) encerrou a sessão. Deputados seguiram para os seus gabinetes.
A metralhadora do dono do frigorífico JBS abreviou a passagem de Adérmis pela Câmara Federal. Embora não tenha relação com a Lava Jato e também não tenha sido citado em delações premiadas, ele perdeu a cadeira de deputado que ocupava como suplente. O titular Roberto Freire (PPS) decidiu deixar o governo Temer.
No dia seguinte, Adérmis limpou suas gavetas e retornou para Franca. Mesmo com convites para continuar em Brasília, deverá reassumir a cadeia de vereador nesta terça-feira.
Como o senhor define o período que passou em Brasília?
Ao contrário do que muitos imaginam, ficar em Brasília é uma solidão muito grande. Minha família ficou em Franca. Fui pra lá sozinho. Você sente esta solidão e, ao mesmo tempo, você custa a reconhecer pessoas em quem você pode confiar. Esta é a maior dificuldade. Mas foi uma experiência fantástica. Fizemos nossa parte e trabalhamos muito neste período. Lutei contra as adversidades, me senti motivado, apresentei vários projetos e defendi os meus valores. Deputados de vários mandatos que já estão na Câmara há muitos anos disseram que foi o pior momento da história política do País. Momento em que ocorreram tantas crises, que afetaram o Executivo e o Legislativo do País e, até mesmo, o Judiciário. Presenciamos de perto uma crise moral e ética.
Como foi trocar a Câmara de Franca e viver a crise que abalou Brasília?
Foi uma transformação muito grande. Deixei a Câmara de Franca, onde temos uma estabilidade política, e passei a conviver no centro de uma grande crise. Me senti no olho do furacão. Vivi de perto o que as pessoas acompanharam estarrecidas pelo jornal e pela TV. Às vezes, estava em alguma reunião quando era divulgado algum áudio ou detalhe de delações. Via de perto como mudava a expressão de quem estava sendo atingido diretamente. Presenciava de perto o momento histórico junto com os personagens. O Brasil, realmente, precisa ser passado a limpo. A Reforma Política quem vai fazer é a população através do voto.
O senhor foi muito criticado por ter votado a favor da Reforma da Trabalhista. Como foi a pressão?
Fui pressionado por sindicalistas, principalmente, porque perderam o imposto sindical. Parte da população não entendeu o projeto. Quem entendeu, viu a necessidade. A reforma contempla outras modalidades de trabalho que são necessárias. Quem mais fez críticas foi a parte sindical. Também é preciso aprovar as reformas Tributária e Política, para fazer o Brasil avançar. Caso contrário, vamos virar uma Venezuela.
Se arrepende de ter votado a Reforma Trabalhista?
De jeito nenhum. Votaria sim novamente. Em relação à Reforma Previdenciária, declarei há três meses que sou contrário.
Aécio Neves, então presidente do seu partido, PSDB, foi atingido em cheio pela delação bombástica. O que tem a dizer a respeito?
Fiquei perplexo. Acredito num projeto político, fui candidato a deputado federal e ele a presidente. Fizemos reuniões em conjunto e debatemos assuntos de interesse, mas vimos que, nos bastidores, não funcionava bem assim. Diferente de membros de outros partidos, eu defendo a investigação, defendo a Lava Jato e espero que ele responda pelas acusações. Se ficar comprovado, não tem a menor dúvida de que vou criticá-lo. Posso dizer que os áudios que eu ouvi são gravíssimos, tanto é que nossa bancada pediu o afastamento dele. Fui um dos que se manifestaram pelo afastamento dele.
Ficou decepcionado com o Aécio?
Fiquei frustrado não só com o Aécio, mas com a política brasileira. É muito triste tudo o que está acontecendo. Tenho esperança que vai melhorar. Não podemos jogar todos na mesma vala. Presenciei deputados com vontade, que dão o exemplo, que querem um Brasil melhor. Tenho a consciência tranquila de que fiz a minha parte.
O senhor defendeu a saída do PSDB do governo Temer, mas o partido recuou e decidiu ficar. Como avalia esta posição do partido?
Sou favorável à retirada do governo. Sugeri que o nosso bloco de partidos faça uma agenda de transição para escolher rapidamente um novo presidente. O Michel Temer, na atual circunstância, não tem condições nenhuma de governar o País.
Como vão ficar os projetos que o senhor deu início como deputado?
Vou ter que me desdobrar. Vou trabalhar em Franca sem esquecer das ações importantes que estão em andamento em Brasília. Articulei recursos para Franca e região, tem a questão do credenciamento do aeroporto e o problema que envolve a derrubada dos ranchos. Vou acompanhar isto de perto.
Durante o período como deputado, o senhor foi muito atuante nas redes sociais e se manifestou sobre temas diversos, mas não conseguiu nada de concreto. Como avalia estas críticas?
Conseguir alguma coisa em Brasília em apenas quatro meses não é fácil, mas vamos conquistar sim. Temos várias coisas em andamento. Por meio de nossa bancada, vamos articular para ver se conseguimos R$ 5 milhões para a Santa Casa. Até o final do ano, esperamos conseguir recursos na ordem de R$ 2 milhões para a região e outros R$ 2 milhões para Franca. Isto só se efetiva em outubro, durante o orçamento. Eu não estava na Câmara quando aconteceu a votação do atual orçamento. Quem faz esta crítica não conhece como funciona o sistema Legislativo e muito menos a questão financeira. Tive o compromisso do partido de que os nossos deputados vão dar sequência às minhas ações.
O senhor retorna para Franca triste, frustrado ou chateado por ter deixado a Câmara Federal?
Deixo Brasília frustrado, pois estava aprendendo e entendendo uma série de coisas. Várias ações estão em andamento, mas eu não vou precisar do cargo para viabilizá-las. Mantenho o status de deputado e continuarei lutando muito como vereador. O trabalho não para. Minha passagem por Brasília valeu muito a pena. O sentimento é de gratidão. Apresentei 14 projetos de lei, debati temas importantes e sempre me posicionei. Presidi a Câmara Federal várias vezes e tive 100% de presença. Como deputado, visitei 48 cidades e recebi prefeitos, vereadores e representantes de 109 municípios. Por conta de minha atuação, recebi convites para permanecer em Brasília, mas a tendência é reassumir a cadeira de vereador na Câmara. Só aceitarei alguma proposta para trabalhar fora se for algo muito bom.
Qual será o seu futuro político? Sairá a deputado ou a prefeito?
O planejamento agora é trabalhar. No momento certo, vamos decidir o que é melhor para Franca e para a região.
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