Morreu, esta semana, o professor Antônio Cândido de Melo e Souza. Fico-lhe devedor pelo quanto aprendi em seus livros. Permaneço admirador seu pela coragem e dignidade com que enfrentou o golpe militar de 1964.
Fiquei longe da intelectualidade, distante da coragem do homem. E, no entanto, temos algo em comum: a cidade de Santa Rita de Cássia.
Antônio Cândido viveu em Cássia, em casa de parentes, muitos anos de sua infância. Eu nasci e vivi parte de minha infância em propriedades rurais do município. Somente morei na cidade quando já tinha 26 anos de idade.
Esse ponto de aproximação possibilitou-me dois encontros com o homem famoso.
O intelectual foi a Cássia, visitar seu primo Paulo Carvalho que convidou meia dúzia de pessoas para recepcionar o visitante ilustre. Fui um dos convidados.
Ocorre que eu vivera até então na roça e em periferias de cidade. Eu nunca sequer havia entrado em um restaurante. Não sabia o que fazer com a quantidade de talheres que chegavam a cada vez que era servido algo diferente. Fechei a boca duplamente. Não comi e não conversei com o visitante, embora já cursasse o primeiro ano do curso de Letras.
Muitos anos depois, Antônio Cândido voltou a Cássia e proferiu uma palestra sobre o Modernismo Brasileiro. Perguntei-lhe se era verdade que considerava um verso de Rossine Camargo Guarnieri como o mais belo da literatura brasileira. Educadamente ele explicou que tal escolha era muito pessoal, mas que ele realmente elegia um verso do Rossine:
...e o trigo chora nas hastes, a mágoa de não ser pão...
e
... tu pisavas nos astros distraída...
de Orestes Barbosa, como versos que muito o sensibilizavam.
Antônio Cândido era ágil, humilde, acessível, iluminado. Cativava quantos dele se aproximavam.
Apesar disso, nunca lhe submeti a ele algum livro meu. Penso que fui tolhido pela consciência do meu tamanho e do tamanho do crítico.
E preferi degustar ao longo da vida, humildemente, a iguaria de sua obra.
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