Morféticos


| Tempo de leitura: 1 min
A mãe, preocupada com as crias, estava sempre alerta. Quando via lá na porteira, lá longe, o grupo de oito, dez cavaleiros, já sabia, ficava seca.
 
— Entrem e fechem tudo que é porta e janela. Se um de vocês pisar aqui fora, apanha de taca.
 
A mulher ficava enorme, crescia igual massa de bolo cheia de fermento. Ela era muito corajosa, permanecia sozinha lá fora, na porta, conversava com os lazarentos.
 
Homens, mulheres com crianças embrulhadas em trapos sujos de sangue ou de remédio, pediam comida, roupa velha, bebiam água e depois se iam sem apear. Então a mãe pegava o enxadão, ia para o fundo do quintal enterrar a caneca, tudo em que os doentes tinham posto a mão.
 
Os olhinhos do menino tapavam as gretas da janela, a curiosidade empatando com o medo, inventariando os aleijumes, os rostos e membros mutilados. O espólio seria dividido em assombrações que, durante muitas noites, espantariam os sonhos com o potrinho que o pai lhe prometera, com o canivete que o padrinho lhe garantira no aniversário tão distante.
 
A mãe, cuidadosa da salvaguarda dos filhotes, semeava o terror, esquecia-se de regar a compaixão.
 
Hoje, desaparecidas as frestas, quando se escancaram todas as portas para o culto do corpo, as fendas ficaram todas disfarçadas e, camufladas, as mutilações não despertam medo de contágio.
 
O olho arregalado do menino viu tantos amanheceres e tantas tempestades que o arco-íris acabou por desmanchar-se, restando apenas o cinza colorindo o sol e o horizonte.
 
Agora, a noite chega.
 
E o menino não sente nem medo nem compaixão do adulto que caminha em névoas. Desobediente, fica penalizado é do leproso que percorria, a cavalo, sítios e fazendas sem lanterna para ver um amanhã.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários