Francana recebe Prêmio Espantaxim de Redação


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Maria Eduarda Borges Silveira, da ONG Academia de Artes e Dulce Auriemo
Maria Eduarda Borges Silveira, da ONG Academia de Artes e Dulce Auriemo
Espantaxim é um personagem que nasceu de canção homônima. Simpático espantalho, cuida de uma horta, espaço lúdico como o é um jardim. Faz bolas de sabão que têm o poder de mostrar na transparência tudo que se passa na cabeça de seus amigos. Exibe saltitantes olhos de jabuticaba, nariz de cenoura, orelhas de batata, boca de lata e cabelos de lã colorida. Usa chapéu de palha, paletó amarelo e uma vassoura na mão. É multi-instrumentista e pertence à Turma do Castelinho Mágico, projeto lítero-musical infantil criado pela educadora, compositora e musicista . Uma mulher de múltiplos talentos, com vocação e preparo para a música e a literatura. Mas, especialmente, uma brasileira preocupada com a educação de nossas crianças.
 
Graduada em comunicação pela FAAP nos anos 80, Dulce participou de vários movimentos literários da época e como instrumentista concentrou seus estudos de piano, violão e flauta em cursos no Brasil e Estados Unidos. Parceira de compositores conhecidos da MPB, afastou-se um pouco da cena artística ao se casar com o médico Caio Roberto Chimenti Auriemo, hoje professor do Departamento de Clínica Médica da Santa Casa. A família aumentou, quatro filhos chegaram, e na casa onde eles cresceram foram sempre acalentados pela música e ficção da mãe, grande contadora de histórias; pelo bom humor e erudição do pai, um homem de simpatia contagiante. 
 
Mas foi a chegada dos primeiros netos (ela tem oito) que inspirou Dulce a retomar sua produção de textos e estrear na Literatura Musical Infantil, lançando o livro/CD “Espantaxim e o Castelinho Mágico 14 Canções de Dulce Auriemo”, em 2002. Depois, em 2009, a obra “Meu primeiro álbum de piano solo” ganhou o Prêmio Jabuti, na categoria paradidático. Foi grande estímulo para a autora o reconhecimento do valor da edição bilíngue com 14 canções destinadas a crianças e arranjos elaborados por Amilton Godoy, seu professor de piano e harmonia, além de grande incentivador e também parceiro em “Notas que falam.” Com Paulinho Nogueira a parceria foi firmada em oito canções. 
 
O projeto cultural de Dulce Auriemo, que vai além dos personagens do Castelinho Mágico e se ampliou muito nos últimos anos; foi acolhido por centenas de escolas e instituições beneficentes de norte a sul do nosso país. Com caráter pedagógico mais direcionado à faixa etária dos seis aos doze anos, estimula as crianças à música e à literatura, assim como incentiva a preservação do meio ambiente e a cultura da paz. Esse anseio por uma cultura da paz moveu Dulce a criar o Prêmio Espantaxim de Redação, que chegou no ano passado à sua IV edição. 
 
Preocupada àquela altura, meados de 2016, com as revelações da Lava Jato que estavam (como continuam) a desencadear um processo de baixa estima nos brasileiros, os quais muitas vezes chegavam (como chegam) a depreciar o País diante da avalanche de corrupção e outros males dela decorrentes, Dulce pensou em como estas informações estariam chegando às crianças. Propôs então como tema do concurso, que já se firmara no âmbito escolar, uma proposta otimista: “Brasil, gigante pela própria natureza”. Destinado a estudantes de todo o país, dos 3 aos 12 anos, inovou ao ampliar o formato para a mensagem dos concorrentes. Os ainda não alfabetizados poderiam desenhar e traduzir seus sentimentos à professora, que os anotaria em anexo. Os já alfabetizados tinham como escolha o poema, a mensagem, a dissertação. O importante seria que os professores ajudassem as crianças a olhar para aspectos positivos do Brasil, conversando sobre eles, não deixando que elas fossem contaminadas pelo discurso adulto, em vastos segmentos e faixas sociais extremamente pessimista em relação ao presente e ao futuro. 
 
Foi surpreendente o número de adesões. Concorreram 3400 textos produzidos por estudantes das redes pública e particular de ensino de dez estados da federação. Anunciado em abril, recebeu inscrições até agosto. Uma comissão julgadora formada por cinco educadoras trabalhou durante três meses na seleção dos melhores. Em dezembro, saíram os nomes dos 174 vitoriosos. Entre eles estava a francana Maria Eduarda Borges Silveira, há três anos aluna do Curso de Reforço em Língua Portuguesa e Criação de Texto da Academia de Artes, ONG mantida exclusivamente pelo GCN há nove anos. Quando a notícia chegou em dezembro à ONG em telefonema e e-mail direcionado à diretora, professora Sandra Machiavelli, todos vibramos. Era uma grande conquista. Desde então vínhamos nos preparando para a entrega do prêmio, que aconteceu no sábado.
 
O evento superou nossas melhores expectativas. Foi grandioso e emocionante. Aconteceu no teatro do MASP, em São Paulo, e durou quase três horas que mal percebemos passar. Organizado com zelo, contemplou a plateia que lotou o auditório com números musicais, performances dos personagens do Castelinho Mágico, uma apresentação em vídeo de Viviane Senna, autora do prefácio do livro que acolheu os textos dos premiados. Disse ela: “ Vivemos um momento de crise econômica e política, falta de credibilidade causada pelos inúmeros escândalos de corrupção e muita desesperança. Então, é mais do que necessário mostrar a nossas crianças facetas positivas do Brasil. Somos um país de um povo batalhador, de belezas naturais, de riquezas culturais e temos, seguramente, verdadeiros ídolos e heróis que representam nosso caráter. Ayrton Senna dizia que o fato de ser brasileiro o enchia de orgulho. No entanto, jamais se conformou em viver num país em que a maior parte da população enfrenta vida difícil e sem oportunidades. Por isso, em uma de suas frases mais conhecidas, destacava a necessidade de transformar essa realidade: “- Se a gente quiser modificar alguma coisa, é pelas crianças que devemos começar, por meio de sua educação.”
 
Convidadas a nos sentar nas laterais do grande palco, junto a outras educadoras que acompanhavam seus alunos, minha irmã e eu víamos desfilar ali o Brasil multifacetado. Crianças de Santa Catarina e do Mato Grosso, de Pernambuco e do Rio de Janeiro, de Goiás e do Rio Grande do Sul, de Minas, do Paraná, do Tocantins, do Espírito Santo! Crianças de São Paulo. De metrópoles e de lugarejos distantes. Do elitista colégio Porto Seguro, da capital, a uma ONG de Franca que luta o ano inteiro junto a seu precioso voluntariado para não sucumbir.
 
Quando Maria Eduarda recebeu seu prêmio e depois disse que aquele era o dia mais importante de sua vida, pensei que a luta, até agora, valeu a pena. Um talento da escrita, como seus 173 companheiros que se reúnem no livro “ IV Antologia Espantaxim”, Maria Eduarda representa a parte saudável e decente que haverá de restaurar e reconstruir o gigante combalido. 
 
Haverá quem pense em resgastes fora da educação?

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