Sonho de jogar na China fracassa e frustra brasileiros


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Foram Chico e Calô, duas calopsitas, que ajudaram a família de Rodrigo Araújo a tirar a corda do pescoço.
 
A história começou no ano passado, quando Rodrigo parecia ter ganhado na loteria: aos 20 anos, iria estudar inglês e administração e, principalmente, jogar futebol em Taiwan, na Ásia.
 
Rodrigo largou o bico de empacotador com que ajudava os pais e embarcou no que prometia ser a virada de sua vida, com 16 colegas de famílias carentes da região oeste da Grande São Paulo.
 
Menos de um ano depois, 9 dos 17 voltaram ao Brasil. Agora, tentam se desvencilhar de dois pesos: dívidas de até R$ 7.000 por causa dos voos de volta e a multa cobrada pelos organizadores da viagem, de cerca de US$ 8.000 (o equivalente a R$ 25 mil).
 
FILHOS DE BUDA
O intercâmbio foi organizado pela Blia (Associação Internacional Buddha's Light do Brasil), ONG ligada ao templo Zu Lai, em Cotia (SP).
 
A organização criou o time Filhos de Buda - Blia F.C. e no ano passado abriu inscrições para atletas interessados em estudar e formar o time de futebol da Universidade Nanhua (Taiwan), da ordem budista Fo Guang Shan, à qual pertence o templo Zu Lai.
 
Rodrigo, que tentava a sorte no esporte desde pequeno, viu na oportunidade uma escala promissora para o mercado do futebol chinês.
 
Nem todos os integrantes do Filhos de Buda F.C. se interessaram pela viagem, e a Blia recrutou atletas que não faziam parte de seu time, como Anailson Lira, então com 19 anos de idade, que jogava em uma escola municipal no km 15 da via Raposo Tavares.
 
O grupo desembarcou em Hong Kong no início de maio de 2016, para uma rodada de apresentações.
 
A imprensa regional noticiou 12 jogos em 23 dias, organizados pelas fundações Soong Ching Lin (ligada ao governo) e Mestre Hsing Yun.
 
O patrocínio foi do grupo estatal de investimentos Citic, segundo os jornais locais.
 
Da China foram a Taiwan, e aí o vento começou a virar.
 
Antes de chegar à universidade, os jovens foram alojados no templo Fo Guang Shan, santuário budista conhecido por suas refeições vegetarianas em silêncio total.
 
PASSAPORTES
Lá, seus passaportes foram recolhidos, segundo Rodrigo, Anailson e outros três colegas –Wesley Caldas, Weslley Silva e Renato Santos, o capitão do Filhos de Buda F.C.
 
Por causa desse relato, o caso foi encaminhado ao Ministério Público Federal. Em processo que corre na 2ª Vara Cível de Cotia, há cópia de mensagens em que os jovens se queixam aos organizadores da falta do documento.
 
Procurados ao longo de dois meses, os organizadores não quiseram falar com a Folha. Na defesa anexada ao processo, advogados dizem que os passaportes foram recolhidos para a matrícula na universidade e depois devolvidos (leia texto ao lado).
 
Os cinco rapazes também afirmam que precisavam servir como garçons no templo, a comida era racionada e lhes fazia mal e o tratamento que recebiam quando se machucavam não fazia efeito.
 
Renato foi o primeiro a pedir para voltar, dois meses depois da chegada. "No Brasil, fui enganado por empresários muitas vezes. Em Taiwan, quando me disseram que não estávamos lá para jogar futebol, percebi que acabaria me prejudicando mais uma vez."
"De repente, Rodrigo passou a ligar todo dia, querendo vir embora", diz seu pai, Luiz Gonzaga Araújo, 52. Os R$ 4.815 da passagem ele levantou parte com o dono da churrascaria em que é garçom, parte com um irmão. "O resto parcelei no cartão."
 
Multa pelo correio
Um mês depois, a família recebeu pelo correio uma convocatória para discutir o pagamento de multa. "Se foi tudo doado, por que estão me cobrando? Quando falaram 8.000, pensei até em vender o carro, que ainda estou pagando. Mas eram dólares... Só se vendesse minha casa."
 
Com outras quatro famílias, Araújo contratou a advogada Soraya Barbosa, que pediu na Justiça a anulação do contrato de intercâmbio e indenização por danos morais.
 
"Não houve desistência. Os garotos voltaram porque estavam machucados, sem tratamento eficaz e sem alimentação adequada", diz ela.
 
 
"Como uma entidade que diz trabalhar pelos carentes cobra multa de mais de um ano de renda das famílias?"
 
Enquanto o processo corre, Araújo passou a dar hora extra para quitar a dívida com o patrão. Sua mulher, Mara, organiza bazares e vende gelinhos para a vizinhança, por R$ 1,00 cada um.
 
Chico e Calô ajudaram a saldar a dívida do cartão de crédito: desde o começo deste ano, já chocaram sete filhotes, que Araújo conseguiu vender por R$ 150 cada um.
 
Contratado em março como auxiliar de expedição de uma rede de farmácias, Rodrigo diz que ainda sonha em fazer carreira como jogador.
 
"Enquanto as minhas pernas aguentarem, eu vou continuar tentando."
 

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