Imagine ter como vizinhos 1,5 mil criminosos e dormir a poucos metros de traficantes, ladrões e assassinos. Imagine morar com a família e criar filhos e neto neste local. Você teria tranquilidade vivendo em um “barril de pólvora” assim? Acredite, o personagem desta entrevista tem como endereço uma cadeia e afirma que é o lugar mais seguro da cidade.
Válter Moreto tem 45 anos e há 26 trabalha em presídios. Desde 2010, é o diretor do CDP (Centro de Detenção Provisória) de Franca. Tem sob sua responsabilidade cerca de 250 funcionários e uma população carcerária de 1.525 presos.
Para manter o controle do tenso ambiente, o diretor, literalmente, vive no CDP. Passa os dias cuidando da administração e com os olhares e ouvidos atentos nas câmeras que registram todos os movimentos dentro e fora das muralhas. À noite, vai descansar na casa que fica dentro da unidade.
Morar com a família em cadeias não é novidade para ele. Os dois filhos mais novos nasceram quando os endereços de Válter eram as penitenciárias de Iperó e de Ribeirão Preto. Há sete anos, vive no CDP de Franca com a mulher, filhos e um neto de cinco anos.
A unidade dirigida por Válter é tida como referência. A ordem e disciplina são mantidas com rigor. Desde a inauguração, o CDP nunca registrou tentativa de fuga ou rebelião. O diretor falou ao Comércio sobre sua rotina.
Como é a vida de um diretor de CDP?
É um pouco tensa. Estamos sob vigilância dos órgãos públicos, do Estado e do governo federal no sentido de não deixar acontecerem imprevistos, situações que possam causar problema tanto para o CDP quanto para a sociedade. A cobrança é muito grande e o dia a dia aqui é estressante. Temos 1,5 mil pessoas tentando obter algum tipo de vantagem para elas e o nosso trabalho é não deixar que isto aconteça. É preciso estar com olhos e ouvidos atentos e prontos para coibir qualquer tipo de ação do preso ou do crime organizado. O trabalho exige muita dedicação para controlar e manter o clima de estabilidade.
O senhor já recebeu ameaças?
Sim. Durante a carreira já fui ameaçado algumas vezes. Temos que saber lidar com isto para não perder a essência do profissional de segurança.
O senhor mora com a família dentro do CDP?
O Estado oferece duas residências, sendo uma para o diretor-técnico e outra para o diretor de segurança. Nós moramos aqui com esposa, filhos e netos. Toda a família está por perto.
Consegue dormir tranquilo?
Sim. Temos que confiar na nossa equipe. As ordens e diretrizes são dadas para a equipe de trabalho e executadas muito bem. Tenho, graças a Deus, profissionais descentes, honestos e capacitados. Então, nesse ponto, eu durmo tranquilo. Posso até te dizer que morar dentro do CDP é o lugar mais tranquilo que tem na cidade hoje.
É mais seguro morar no CDP e ser vizinho de 1,5 mil criminosos do que morar em outro local da cidade?
Sim, sem dúvida nenhuma. Aqui, temos uma equipe de segurança 24 horas por dia, 365 dias por ano. Na cidade, isto já não acontece. Aqui é o lugar onde o criminoso, talvez, não tenha a intenção de vir criar problemas.
Querer atentar contra a vida do diretor de um presídio não é uma boa ideia...
Sem dúvida. Isto acontecendo, vai acarretar alguns problemas para o criminoso e tornará a permanência dele mais difícil dentro do presídio, tanto por conta do crime em si, quanto para o grupo que fez esta ação. Sozinho o preso, talvez, não faça nada.
Qual é o segredo para lidar com um criminoso?
É preciso ter respeito pelo preso, respeito pelos visitantes, tratar o ser humano com decência aqui dentro e tentar dar para o preso oportunidades e condições de regeneração para a gente ressocializar. Ter o pulso firme é importante para manter o controle, pois, sem controle, não é possível realizar o nosso trabalho.
O que leva uma pessoa a querer trabalhar em um setor tão tenso e perigoso?
Quando fiz o concurso para agente de segurança, não sabia nem o que era um presídio. Não sabia o que passava aqui dentro. Após alguns anos de trabalho, o sangue começou a correr na veia. Na realidade, não existe receita para isto. Ou você gosta, ou não gosta. Hoje, trabalho porque gosto desta área. É uma coisa instigante. Cada dia é diferente do outro. Não temos rotina.
Sua família convive bem esta situação?
Eles acabaram se acostumando. Conviver bem com minha profissão não é fácil para quem não está dentro dos muros aqui, para quem não vê a situação de uma forma tranquila. Minha família se acostumou. Meus filhos, dois deles nasceram quando eu já morava dentro de presídios. Então, isto para eles é uma vida normal. Eles iriam estranhar se morassem numa rua pública. Minha mulher também já se adaptou à nossa rotina. Para mim, foi tranquila a assimilação da família com o trabalho e quanto a morar dentro do presídio.
Como define o clima entre os presos?
Temos uma unidade prisional em clima normal de trabalho. O CDP tem os seus momentos de alguma tensão sobre problemas pontuais. São coisas que se resolvem no dia a dia sem maiores problemas. No contexto geral, analisando pelo Estado inteiro, temos uma unidade prisional tranquila.
A equipe de trabalho do CDP conta com a participação de presos?
Temos cerca de 150 presos que trabalham em serviços diversos, como limpeza da administração, da carceragem, do setor de inclusão e da enfermaria, temos os presos que servem a comida para os outros detentos, que atuam no almoxarifado, temos presos que fazem a manutenção interna e, às vezes, até externa do CDP. Trinta e oito presos trabalham em uma linha de produção da Mariner e outros 24 trabalham na produção da Metalvale. A quantidade de presos ociosos é grande. Ainda não conseguimos adequar um local de trabalho para todos eles.
Os presos são bons funcionários? Correspondem bem às atribuições?
Sim, sem dúvida. Até porque temos uma fiscalização do funcionário em cima deste trabalho. Em qualquer serviço que o preso for fazer aqui dentro, tem alguém acompanhando, tanto para manter a segurança, quanto para manter a qualidade.
O senhor acredita que todos os presos podem ser recuperados?
A oportunidade é dada para todos. Claro que, no momento, não podemos atender todas as pessoas de uma vez, mas, paulatinamente, estamos dando estas oportunidades. Se a pessoa quiser evoluir, se quiser sair da vida do crime, vai ter a oportunidade. Se não quiser, não conseguimos mudar muito, pois a vontade de mudar tem que partir da pessoa. Pelas análises que fazemos aqui dentro, temos índices bem aceitáveis de não reincidência. Muitos presos saíram do CDP e buscaram novas oportunidades de vida, não voltaram para o crime. Tentamos inserir na cabeça dos presos o interesse em criar algo para melhorar a vida deles e não ter que voltar para a prisão.
Há aqueles criminosos que são fregueses do CDP?
Tem aqueles que insistem na vida do crime e que sempre voltam. Temos presos que já entraram e saíram do CDP mais de dez vezes. Este indivíduo tem que ser melhor trabalhado para tentar mudar isso. Há fatores da sociedade que colaboram para que eles continuem no crime, como o tráfico e o próprio alimento do vício da droga. Enquanto isto existir lá fora, esse cidadão será mais difícil de ser recuperado.
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