O toque-toque escorreu suave pelo interior da casa e acordou carinhosamente a letargia e o desânimo que dormiam a meu lado. E, no entanto, aquela música composta pelos nós de dedos desmanchou a metáfora que se erguia das cordas do instrumento.
Abri a porta, e me entraram pelos olhos o pó de suas vestes e o cansaço de seu corpo.
— Um copo de água apenas, pediu.
Escancarei a porta, insisti mesmo que entrasse, que restaurasse as energias no abrigo pobre, pouco mais que tapera à beira da estrada.
A viajante estava sedenta de fato. Então lhe ofereci uma taça de versos, banhei-lhe o corpo, derramando-lhe jarras de estrofes. Depois, antes que se deitasse, estendi sobre a cama um lençol de poemas brancos.
As notas mais sonoras de meu violão velaram seu sono.
Quando o sol cantou na cumeeira da serra, ela se levantou, disse adeus e se foi, deixando o sinal de seus pés no pó do caminho. Retomava a caminhada em busca de um príncipe sobre um cavalo branco.
Plebeu e poeta, resto sozinho.
Olho para meu pasto vazio, dedilho as cordas do meu violão, e uma voz me diz da chegada de uma mulher cujo daltonismo singular não a deixe distinguir cores do sangue.
O pinho me segreda que a bem-vinda achará nobreza no meu canto.
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