Pela leitura de “Texto perturbador”, fiquei sabendo que o jornalista Pyr Marcondes, da Meio e Mensagem, anda muito preocupado com a disseminação de softwares que automatizam a produção de notícias nas áreas de esporte, economia, moda, saúde e outras mais, substituindo a mão de obra humana com maior rapidez e eficiência. Depois de participar de dois painéis em Nova York sobre o tema, Marcondes se pergunta qual será o futuro do jornalismo, quando mais e mais máquinas estiverem produzindo as notícias que todos lemos mundo afora; toda a informação do Planeta; ou algo por aí.
Fica claro que logo as máquinas estarão processando o noticiário com muito mais rapidez que o cérebro humano de um profissional competente e experiente. Os computadores, a partir de alguns fatos, como o comportamento do mercado frente a uma situação x, cruzarão com velocidade inimaginável os dados concentrados em sua mega memória e que demandariam ao jornalista dias de pesquisa. Em poucos minutos construirão textos que humanamente seriam impossíveis em curto prazo. Bastará alimentar as máquinas com os fatos do momento para que construam textos abrangentes, com o melhor léxico e sintaxe.
É impressionante. É o futuro que chegou mais cedo do que esperavam os de minha geração; e os que ainda se recusam a usar computadores, ter seu próprio endereço virtual, trocar mensagens, conhecer o oráculo dos tempos pós-modernos que é o Google, entrar nas redes sociais pelo menos para ver a multiplicidade de opiniões sobre um mesmo assunto, pasmar-se se diante da instantaneidade dos acontecimentos : o que ocorreu há uma hora ficou velho; a busca é pelo acontecimento do último minuto.
O mundo mudou radicalmente nas últimas décadas, estamos no fulcro de uma revolução, a digital, que está mudando por completo a maneira de viver dos humanos. Os computadores vão substituindo o homem de forma avassaladora e, mais que isso, já começam a espioná-lo. Não pertenço ao mundo da política nem da diplomacia, não sou espiã nem terrorista, não lido com nenhum segredo que interesse aos americanos. Sou simples sexagenária num país latino-americano e mesmo assim sinto um frio na barriga ao saber que é possível à CIA bisbilhotar Iphones, celulares Android, TVs Samsung e muitos outros aparelhos que fazem parte do nosso dia a dia. Tenho meus temores, mesmo que, contrariando o WikiLeaks, o decano da segurança na Internet, Steven Bellovin, tenha garantido que podemos ficar tranquilos. Aos humanos de todas as latitudes ele avisa que os agentes da Inteligência não conseguem (ainda!) quebrar a criptografia de Whatsapp, Telegram ou Signal. Será?
Sei não. Já há algum tempo ando cismada com a onisciência de meu celular, que me lembra em imagens recuperadas de um, dois, cinco anos atrás, fatos dos quais eu havia me esquecido completamente. Ou, sem que eu lhe pergunte, me informa, quando atravesso o portão do condomínio onde moro, quantos minutos levarei de casa ao trabalho e qual o trajeto mais rápido. Também me impressiona o fato de que mal chego num lugar ele me conta sobre os principais espaços que podem interessar ao redor. E, discreto, ainda me interroga se desejo que outros saibam onde estou. Sem contar que me avisa com 12 horas de antecedência, e sem ser solicitado, como estará, no momento em que eu acordar, a temperatura, a qualidade do ar, o sol, as nuvens, o céu e tudo o mais que compõe o tema da climatologia.
É por essas ( e muitas outras) que tem vindo à minha mente o romance de Georges Orwell, 1984, e sua criação máxima, o Grande Irmão, aquele sujeito “de 45 anos, bigodão preto e feições rudemente agradáveis” que assumiu o poder depois de uma guerra de escala global. No livro, publicado em 1948, cartazes espalhados pelas ruas mostram a autoridade máxima e seu slogan: “O Grande Irmão está de olho em você”. E está mesmo, literalmente, graças às “teletelas”. Espalhadas nos lugares públicos e nos recantos mais íntimos dos lares, elas são uma espécie de televisor capaz de monitorar, gravar e espionar a população, como um espelho duplo. Grande Orwell! Artistas conseguem ver tudo primeiro - acho que foi Freud quem disse isso.
Tenho pensado muito no protagonista criado por Orwell , e especialmente depois que me tornei tornei fã da Netflix, esse maravilhoso serviço de filmes. É que venho sendo muito assediada com frases insinuantes do tipo: “Sonia, este filme vai interessar a você...” Ou, “Se você gostou de tal título, vai gostar deste também...” E percebo que há uma preocupação com minha família, pois alguém, ciente de que eu não aprovaria meu neto João acessando filmes inapropriados para sua idade, costuma me perguntar na sua linguagem binária quem está conectado- se eu ou outra pessoa, no caso indiciada por uma carinha infantil.
Mas o que me deixou perplexa aconteceu no último sábado, quando assistia em sistema de maratona aos episódios finais da série Reign, que conta de forma épica parte da vida dramática de Mary Stuart. De olho no celular, acompanhando as traições de Catarina de Médicis e as ambições de Elizabeth, a Rainha Virgem, fui vencida pelo sono, já na madrugada, e de repente capotei. Muito tempo depois, ao acordar, olhei o aparelho ainda na minha mão e algo na telinha me chamou a atenção. Juro que tive de esfregar os olhos para acreditar no que lia. Em letras brancas sobre tarja vermelha, o Grande Irmão me perguntava: “Você ainda está aí?”