Jogo Baleia Azul: 'Adolescente precisa de limites claros'


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Psicóloga clínica especialista em Psicanálise da Criança e do Adolescente Vanessa Maranha
Psicóloga clínica especialista em Psicanálise da Criança e do Adolescente Vanessa Maranha
Provavelmente, nas últimas semanas, você muito viu e ouviu falar nas redes sociais, noticiários e em rodas de conversa sobre o assunto “baleia azul”. Estudiosos, profissionais das áreas da saúde, pais, professores, comunicadores e adolescentes têm discutido a respeito do tema. Mas, afinal, do que se trata? O “baleia azul” é um jogo criado na internet e que incentiva os jovens a cometerem suicídio. O jogo foi, supostamente criado na Rússia, em 2015, e leva esse nome em referência ao animal e sua não comprovada tendência suicida. 
 
O jogo envolve a vítima - normalmente adolescentes - e por meio de convencimento e/ou intimidação, o leva a cumprir desafios que colocam sua vida em risco, como se asfixiar, subir em telhados e pontes e, também, se automutilar. Além disso, o curador (pessoa que dita as regras e envia ao jogador através do Facebook ou WhatsApp), escolhe desafios específicos para sua vítima, pensando em suas fragilidades. Quando 49 desafios são cumpridos, a 50ª atividade encerra o jogo com o suicídio do participante.
 
O assunto que parecia uma “lenda urbana” passou a preocupar pais e autoridades, uma vez que cada vez que têm sido registradas várias ocorrências em que jovens justificam ferimentos ou comportamentos inadequados como cumprimento das regras do jogo. 
 
Diante desse quadro preocupante, o que os pais e responsáveis devem fazer para proteger seus filhos contra esse risco? Como devem proceder se desconfiarem que os filhos podem estar envolvidos com o jogo? A psicóloga clínica especialista em Psicanálise da Criança e do Adolescente Vanessa Maranha dá orientações aos pais sobre como agir diante desse risco presente nas redes sociais. 
 
Que tipo de comportamento um jovem pode apresentar que possa indicar seu interesse ou participação no jogo ‘baleia azul?
 
Em geral, reclusão, impaciência, agressividade e humor depressivo são sinais de alerta, bem como todo comportamento que fuja do habitual, como o adolescente retirado da família e recluso no quarto, habitante de um mundo virtual.
 
Se os pais perceberem algo que suscite preocupação, qual a melhor maneira dele agir? Devem falar abertamente com o filho de imediato? Monitorá-lo antes? Falar com amigos, namorado(a), professores? Procurar ajuda profissional?
 
É importante construir uma relação em que o filho não veja os pais como inimigos, oferecendo sempre uma noção clara de causalidade, isto é, estabelecendo as razões pelas quais algumas restrições e limites lhe são colocados e oferecer a possibilidade de “negociação”. É importante a honestidade da relação, que o filho confie, acredite nesses pais. Portanto, a conversa sincera e clara é o caminho mais adequado. A princípio, deve-se conversar com os filhos, oferecer-lhes uma escuta, oportunidade de expressão e diálogo. 
 
O convite para que o jovem participe desse jogo é feito por meio do WhatsApp e Facebook. Seria recomendável um pai checar as contas do filho? Se essa for uma possibilidade válida, seria mais aconselhável conversar com o filho e verem juntos essas contas ou fazê-lo sem o conhecimento do jovem?
 
Como eles ainda não têm autonomia, a privacidade e liberdade são relativas. Em outras palavras, estabelecer quais limites são negociáveis, flexíveis e quais não são, sem culpa, compreendendo que seres em formação precisam de limites claramente estabelecidos, pois ainda não sabem lidar com a indelimitação. O adolescente tem direito à privacidade. Que fique estabelecido que movimentar-se dependerá da forma com que ele lidará com essa liberdade. É necessário que entendam privacidade e liberdade como conquistas que dependem de sua forma de agir. A invasão só se justifica em caso extremo, mas, para que não se chegue a isso, é necessária uma relação participativa.
 
Esse tipo de convite para o jogo Baleia Azul vai despertar interesse em jovem que já tenha um problema emocional? Ou qualquer jovem, dada a idade, a fase do desafio e a curiosidade pode aceitar um convite como esse e se ver envolvido?
 
Sim. Entende-se que o mergulho nesse tipo de jogo, o uso de drogas e comportamentos de risco sejam sintomas. Um jovem mais estruturado consegue, em tese, ter um posicionamento mais crítico, mas é importante não esquecermos que as experiências de risco e testes de limites com vista à aceitação do grupo são muito atraentes a ele, principalmente entre o início da puberdade e a adolescência.
 
Existem estudos ou teorias a respeito desse tipo de “brincadeira”? De onde surgem, por qual motivo?
 
Há estudos em Psicologia, Psicanálise, Psiquiatria, Sociologia, Antropologia e outras áreas. Mas trata-se basicamente de uma questão de desenvolvimento entrelaçada aos discursos de uma época. Mudam as ferramentas, os perigos, mas o aspecto transgressor do jovem, uma fase dolorosa em que a criança sai do ‘romance familiar’ para se subjetivar, encontrar seus pares, tem os seus ritos de passagem, desde as tribos mais primitivas às tecnocracias, grosso modo.
 
Uma série original da Netflix, ‘13 reasons why’, aborda a questão do suicídio e virou febre entre adolescentes. A abordagem gerou polêmica, pois há quem acredite que a série estimula ou justifica o suicídio. Por outro lado, há quem a considere fundamental, pois abriu espaço para a discussão de tema tão delicado. Como você avalia? 
 
O suicídio é um tema tabu nas sociedades, especialmente naquelas permeadas por discursos religiosos. Sempre houve, por seu caráter angustiante, um silenciamento em relação a isso, sobretudo ao se identificar o seu aspecto de multiplicação por identificação, ou seja: foi estatisticamente comprovado que noticiar suicídios, sobretudo com descrição das formas de se acabar com a própria vida, aumentou a sua incidência. Toda proibição alimenta o desejo, estimula a curiosidade. Pessoalmente, profissionalmente, não acredito que o silenciamento em tal abrangência resolva as questões. No máximo, sem que sejam elaboradas. Vivendo na sociedade da informação (muitas vezes deturpada), penso que o mais sensato é estar junto, orientar, retirar a aura de tabu para demonstrar que é preciso procurar ajuda, dizer, gritar, se houver ideação suicida, para descobrir onde está a sua causa.
 
Além do apoio dos pais, o que a escola, através dos professores, pode fazer para ajudar crianças e adolescentes?
 
A escola poderia fazer muito mais do que faz. Refinar o olhar para os casos de bullying, criar programas efetivos para fomentar relações humanas mais saudáveis, menos danosas, não reproduzir modelos nem discursos de omissão, exclusão e preconceito, reconhecer o seu ponto de atuação e, ser abusiva, equilibrar-se na autoridade que lhe é conferida, nem mais, nem menos. Lembrar sempre, pais e professores: vocês são modelos (tanto negativos quanto positivos) para seres em estruturação.
 
No ano passado, a “moda da vez da internet” era o jogo da asfixia. Agora, é o ‘baleia azul’. Todos esses desafios têm apenas um resultado: o suicídio do jovem. Como combater isso?
 
Primeiro, inteirar-se sobre o assunto, as suas narrativas, o seu jargão, inclusive. O Baleia Azul, por exemplo, usa as mesmas técnicas de cooptação de jovens que o Estado Islâmico utiliza. Hackers invadem uma conta e trabalham a partir das informações obtidas, entrelaçando dados de realidade com fantasias comuns aos adolescentes, sua forma apocalíptica de ver e lidar com as coisas. Os nossos filhos precisam ter noções de privacidade (é preciso falar sobre isso), da deles e dos outros e de como seres perversos podem fazer uso das informações de maneira destrutiva. São sempre discursos distópicos, patologicamente melancólicos, jogos de superação de limites e de estabelecimento de poder. As metáforas, os exemplos concretos, jogos de role playing, são as melhores maneiras de abordar com eles esse assunto.

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