Dificuldades


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Caetano era um amigo-irmão. Quando morreu, sua presença se intensificou em mim.

Durante muito tempo, ele esteve mais vivo do que quando convivíamos. Tomava café comigo, criticava a escolha da camiseta, zombava de minhas barbeiragens no trânsito. A piada do colega de serviço, a vitória ou a derrota do Cruzeiro, do Atlético traziam seu comentário jocoso.
 
Durou meses, muitos meses a sensação de que a presença insistente do amigo jamais deixaria que se preenchesse o vácuo dolorido. Mas são misteriosas as veredas da vida. De repente a alma está localizada noutra freguesia, experimentando padecimentos outros, a gente aprendendo que só uma dor balsamiza outra.
 
E chega um tempo em que surpreso se descobre que é quase vão o esforço para buscar nitidez na imagem querida, diluída pelo tempo, em obediência à lei física de movimento retilíneo uniforme.
 
Quando o amigo Caetano morreu, sua presença se intensificou em mim. Muitos anos depois, quero reavivar sua voz, suas feições, seu dinamismo e encontro dificuldades intransponíveis.
E de repente, eu que nunca sonho – ou dos sonhos nunca me lembro – sonhei com Caetano. Sonho impressionante, pela nitidez. Encontrei-o como sempre: vaidosamente vestido, comandando, executando tarefas díspares a um só tempo. Sorrindo. Rindo daquilo do que acreditamos dificuldades maiúsculas. 
 
Eu fiquei emudecido todo o tempo.
 
A volta de Caetano, paradoxalmente, não me fez bem. Fiquei mais triste.
 
Estou matutando. Não sei se a tristeza é provocada pela ausência, se pela consciência de não conseguir me relacionar com vivos nem com mortos.

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