Quando os filhos nascem, as mães ficam tão felizes quanto ansiosas. Os pais também. Normalmente é assim, a aflição vem no pacote. Afinal, como não ficar apreensivo tendo consciência da parte substantiva que cabe a cada um, e a ambos conjuntamente, na educação dos rebentos?
Na nossa cultura de acentuados traços latinos, onde a mãe está sempre mais presente, os sentimentos inquietantes a pegam de forma mais intensa. Não raro a alegria parece correr o risco de ser sugada a toda hora pelas tarefas estressantes por múltiplas. Parece não; faz tempo que tenho certeza. Por isso já não me assusta ouvir de jovens mães esgotadas o queixume desesperado: ”Meu filho chorou tanto esta noite que tive ímpetos de jogá-lo pela janela!” Antes, quando a vida não havia ainda me calejado, julgava tal frase monstruosa. Hoje acho absolutamente humana.
Tudo contribui para o esgotamento. Quando nos tornamos mães, o grau de expectativas, nossas e dos familiares, é alto demais. Ficamos o tempo todo, muitos anos, acho que boa parte da vida, nos perguntando se estamos dando conta da tarefa hercúlea que é formar um ser humano decente, ético, cuidadoso, responsável. A lista de aspirações é extensa, e lá vamos, nos exigindo absurdamente, de forma até feroz. É evidente que não sobra muito tempo para curtir com leveza o desabrochar dos sentimentos mais delicados da criança, aqueles que se expressam de forma sutil, pedindo atenção amorosa, sem pressa para acompanhar.
Mas quando viramos avós, tudo fica diferente. Nós já criamos os filhos, sabemos onde acertamos e erramos. Aprendemos com certa dor que entre falar e ouvir há distâncias que variam, vão do íntimo e profundo percutir da intimidade a anos-luz da surdez que pode parecer gelada indiferença. As melhores palavras, intenções e sentimentos não são garantia de escuta, acolhimento, adesão: compreender isso é ganho em relação a diminuir culpas e pesos.
Quando chegam os netos, estamos em geral apaziguadas, menos exigentes. Nosso compromisso com eles é pautado em primeiro lugar pelo amor. E assim só as boas emoções emergem a cada novo momento de convívio, quando seguimos de perto seu desenvolvimento. Temos tempo para ouvi-los, nos fazemos integralmente presentes quando eles estão conosco. Podemos auscultar seus corações, sentir o movimento de suas almas que descobrem o mundo, entender o que dizem suas frases elípticas.
Tenho dois netos, Júlia e João. São a melhor parte de meu legado. Júlia tem 18 anos, é universitária, desde bem pequena mostrou-se livre para voar, mas sempre foi determinada em seus propósitos. João ainda é criança, vai completar 7 anos no dia 15 de julho, usufrui como a irmã de toda liberdade para se manifestar. Sua alegria de viver brilha nos grandes olhos escuros, iguaizinhos aos da mãe; seu raciocínio rápido e respostas perspicazes são uma das heranças do pai.
Quando João fica comigo, em alguns finais de semana, o tempo para mim se torna mais iluminado, suave, gentil. Com antecedência preparo a casa para sua chegada, certifico-me de que seus brinquedos serão facilmente encontrados, abro as cortinas do quarto para que veja como cresceu a trepadeira que plantei para ele. Verifico se os dinossauros de plástico devidamente catalogados por eras estão na caixa que ele vai procurar assim que entrar correndo pela porta da garagem. E, nos últimos tempos, tendo dado graças a Deus por ele haver enjoado do espaguete à carbonara e de outros pratos calóricos, coloco ênfase nas frutas. Vou à feira, procuro as mais bonitas, aquelas que, sei, o atrairão. E as coloco numa fruteira grande, que deixo bem à vista na cozinha.
Foi assim que, sábado passado, depois de assistir ao filme Poderoso Chefinho, que ele adorou e eu mais ou menos, chegamos juntos em casa. Ave faminta, rodeou a fruteira e pegou uma banana-maçã. Olho, estranhou, perguntou:
_ Por que ela é assim, vovó, grudada?
Respondi que era uma banana filipe. Com outras frutas às vezes acontecia aquilo também. Desde que se formavam eram daquele jeito. Gêmeas. Filipe.
Ele achou graça, falou de um amigo que tem nome parecido, Felipe; por analogia lembrou-se de Amanda e Lorena, gêmeas univitelinas, também amigas; riu de novo. E quando terminou de comer, tendo jogado a casca no lixo, me disse sério:
_Vó, sabe que quando eu tiver vinte anos posso ter filho?
Fiquei surpresa, imaginado de onde saía aquela pergunta; por segundos me questionei se ele fizera alguma ilação entre frutas e nascimentos. Respondi:
-Poder, pode. Mas não deve.
- Não devo por quê?
_Porque aos 20 anos um moço deve estar estudando, para se formar, trabalhar no que gosta; só depois é que vai pensar em construir sua própria família.
Sem se dar por vencido, ele insistiu:
_ Ah, mas eu quero.
Pretendendo encerrar o papo inusitado indaguei:
_ Tem algum motivo especial para você querer ser pai aos 20 anos?
E ele:
_ Tem, vó! É que eu quero muito que você conheça meus filhos!
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