“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. Esta é uma afirmação que se tornou conhecida a partir do livro de memórias de Gabriel Garcia Márquez – Viver para contar. E me veio com muita insistência à mente, enquanto lia os vinte e oito textos que compõem Minha aldeia, mais um título a ampliar a já vasta obra de Luiz Cruz de Oliveira. A protagonista desta história que tem mais de dois séculos é Franca. Mas o Tempo também é personagem que ocupa lugar de grande destaque. Experiência pessoal, social e histórica, o livro desperta a sensibilidade para o espaço que habitamos e restaura o olhar, talvez embaçado pelo hábito, para reconhecer no presente traços de um passado que desvela a arqueologia da cidade onde nascemos ou que, como aconteceu ao autor, escolhemos para viver.
Os textos são curtos, concisos, independentes; entretanto obedecem a uma ordem cronológica, não especificada mas perceptível. Pelo tom coloquial alçam o status de crônica; pelo acento lírico, o de relato poético; pela veracidade do que narram, registro histórico. Este misto de gêneros aliado a um estilo que tem nas metáforas sua grande força torna Minha Aldeia livro singular que pinta com tintas amorosas uma cidade que existiu na infância, na adolescência, na juventude, na maturidade do autor; e resistindo na sua memória afetiva, é resgatada pela recordação.
Considerando que etimologicamente “recordar” significa “trazer de novo ao coração algo que tenha ficado esquecido”, Minha aldeia é um conjunto de memórias onde o que é narrado não se circunscreve somente ao âmbito dos fatos objetivos, embora seja a realidade o apoio àquilo que está sendo escrito. Com altas doses de subjetividade, e uma recorrente expressão ligada ao tempo - “De primeiro” , o narrador traz à baila o movimento ininterrupto da evolução da cidade que o acolheu menino e a quem ele presta seu tributo: “Cássia foi o berço. Franca é a mãe adotiva que me imprimiu todos os meus livros, que me construiu fama de professor. Minha gratidão é do tamanho do mundo”, registra em Simbiose, que fecha o volume.
Com reconhecido talento para traduzir sensações através de peculiar economia de palavras, marca autoral, Luiz Cruz de Oliveira alcança momentos de enorme concentração de sentidos, como em Rua do Tempo , onde ao mesmo tempo em que registra a gênese da Rua do Comércio e narra o papel desempenhado por ela no processo de urbanização de Franca, recupera memória dolorida de infância pobre e reflete sobre a condição de quem chega hoje “ à margem do Grande Rio”. As duas descrições, a do passado da rua e a da infância do menino, confluem para uma reflexão que atualiza o tempo e vincula de forma profunda autor e cidade, acontecimento e emoção, presente e passado. Depois de se lembrar de um morador desta via que em dia chuvoso oferecera à criança que entregava leite um paletó para que se agasalhasse, e após frisar que há outras ruas “mais famosas, mais modernas que a Rua do Comércio”, conclui: “Mas é na antiga ruazinha que mora, hoje, o menino que, descalço, molhado e tiritando de frio, entregava leite nos domicílios.” O menino ainda está lá, como a rua, mas ambos foram modificados pela passagem do tempo. E é por conta disso, e é graças ao escritor que a vida lapidou, que o texto se constrói de forma admirável.
Trabalho de pesquisa alentada foi empreendido por Luiz Cruz de Oliveira para que o leitor desvelasse junto com ele ruas antigas, pessoas significativas, lugares emblemáticos, momentos decisivos e detalhes pitorescos de uma história que vem se construindo desde o final do século XVIII. E, sensação surpreendente, à medida que avançamos na leitura de Minha Aldeia (título que nos remete ao célebre poema onde Fernando Pessoa exalta o rio de sua terra), vamos nos apropriando de uma história que também é nossa, pois vivemos neste espaço urbano que vem se desenvolvendo desde que “os currais foram empurrados para mais longe.” O narrador desperta em nós, leitores, um sentimento de pertencimento e aumenta nossa percepção de que se o passado foi intensamente vivido não estará morto nem enterrado. Ele pulsará com ritmo forte e reencontrá-lo trará à consciência a sensação de que não se distanciou, continua por perto, justificando a expressão recorrente que emerge num dos últimos textos, Pégaso, menção ao cavalo alado símbolo da imortalidade: “parece que foi ontem”.
O dinamismo que percorre todos os textos confere unidade ao livro: nada está imóvel neste conjunto de instantâneos que ligados pelo ritmo da vida exibem uma Franca que veio pulsando desde que “um homem chegou lá das bandas das gerais, levantou uma barraca minúscula, foi explorar os arredores”, como se lê na abertura. Estes flashes líricos a partir de fatos reais tornam cada um dos textos uma unidade que fala singularmente do todo, o qual, por sua vez, vai se definindo pelas partes. Assim, se o arcabouço de Minha Aldeia repousa numa figura de estilo conhecida por metonímia, plasticamente o livro lembra painel onde cada azulejo se reúne a outros para construir a paisagem e revelar a alma da cidade que habita o escritor e à qual temos acesso graças ao poder da palavra literária. Na argamassa, muito afeto.