Empresário do ramo de informática, o francano Mário Arias Martinez, de 47 anos, assumiu recentemente a direção do Hospital Psiquiátrico “Allan Kardec”. Conselheiro do hospital desde 2015, o novato entra com o desafio de reafirmar a importância do trabalho exercido pelo hospital tanto para os pacientes como para a comunidade francana, além de reforçar a questão operacional do hospital com o intuito de sobreviver às dificuldades financeiras e as incertezas provocadas pelo processo de desinternação dos pacientes.
Casado e pai de três filhos, Mário Martinez é formado em Tecnologia em Processamento de Dados pela Unifran (Universidade de Franca), pós-graduado em Análise de Sistemas pela mesma universidade, e em Gestão Empresarial pelo Centro Universitário Uni-Facef. Há mais de 25 anos no Movimento Espírita e atual presidente do Grupo Espírita Luz e Amor, o empresário foi convidado para integrar o Conselho Diretivo da Fundação Espírita “Allan Kardec”, há dois anos, pelo então presidente Wanderley Cintra. No início deste ano, após novo convite de Cintra, que após dez anos como presidente decidiu deixar o posto, Martinez foi escolhido para assumir a missão.
Com uma despesa mensal de aproximadamente R$ 1,1 milhão, o Hospital “Allan Kardec” conta com 300 leitos. Destes, 200 são gerenciados pelo SUS, 30 HD (Hospital Dia) e 70 particulares. São 280 colaboradores entre corpo clínico, enfermagem, nutrição, lavanderia, manutenção e administração. A diretoria é composta apenas por voluntários.
Em julho de 2015, depois que o Hospital atingiu uma situação insustentável com uma dívida que ultrapassava um milhão de reais, o procurador da República, Wesley Miranda Alves, propôs uma ação em favor da instituição obrigando União, Estado e Prefeitura a custearem uma diária de R$ 102 por cada leito ocupado. Atualmente, apenas o município está com esse pagamento em dia e a União tem uma dívida que ultrapassa R$ 1,4 milhão. O Estado aguarda intimação para realizar os pagamentos.
O senhor assume a presidência do Hospital em meio a uma série de problemas, incluindo atrasos em repasses da União, até a pressão para que ocorra a desinternação. Como pretende administrar o hospital?
Nos últimos dois anos, lidamos com uma crise financeira sem precedentes e lutamos contra isso. Agora o objetivo é voltar-nos para a questão operacional do hospital. Atualmente a nossa situação junto ao SUS é indefinida e vivemos um momento de incerteza e prevejo muitas dificuldades no futuro, relacionadas ao financiamento público, por isso é fundamental que realizemos um planejamento amplo prevendo possibilidades de ajuste na forma de atendimento atual aos pacientes, serviços prestados e novas abordagens terapêuticas.
A desinternação tem sido um tema bastante discutido nos últimos meses. Como presidente do hospital e convivendo com todo o processo e a sua realidade, qual a sua opinião sobre o assunto?
No mundo real, a forma como eles cogitam a desinternação é impossível. Temos moradores no hospital, por exemplo, que estão aqui há bastante tempo e são doentes crônicos. Operacionalmente, fazer as residências terapêuticas, que na verdade são casas normais onde poderão ficar até oito pessoas com um cuidador, dependendo do grau de dependência do paciente, é inviável. No ano passado, realizaram no Hospital um levantamento com foco na desinternação de quantos dos nossos moradores (aqueles que estão há bastante tempo na instituição) poderiam ser transferidos para essas residências e o resultado foi zero. Em Sorocaba temos a experiência de um hospital que tinha 500 leitos e iniciou a desinternação, mas a situação virou um verdadeiro caos e o atual prefeito da cidade já disse que vai manter o hospital.
Dessa forma podemos entender que o senhor é contra a desinternação?
Na forma idealista que ela foi criada, sim. Precisamos fazer um realinhamento dos convênios de uma forma que poderemos nos adaptar à legislação, não ela na íntegra, pois se fizermos isso fecharemos todos os hospitais psiquiátricos, mas temos que criar um meio caminho. Precisamos dialogar e chegar a um denominador comum de qual é o nosso papel, o que esperam de nós e como nos adaptaremos a essa nova realidade. Por exemplo, Franca hoje não conta com nenhum serviço como o CAPS III, que oferece um trabalho de apoio para psicóticos, por isso estamos em conversa com o atual secretário de Saúde, Rodolfo Moraes, para que possamos atuar com esse CAPS e ele funcionar em uma ala externa do hospital, como exige a legislação. Esse CAPS seria responsável por prestar o serviço de apoio e possibilitaria cerca de 3,8 mil atendimentos por mês. Se conseguirmos fazer isso, teremos condições de colocar algumas pessoas em condições de irem para as residências terapêuticas. Hoje não temos um lugar de apoio, que é importante para is
so funcionar. Não somos totalmente contrários a essa legislação nova, achamos realmente que tem algumas pessoas que não deveriam estar aqui, pois aqueles que já estão em condições de estarem lá foram convivendo com os outros doentes acabam se cronificando, tendo mais surtos e mais crises, é preciso esse fluxo. Mas isso é possível com o CAPS 24 horas, que contaria com terapias, psiquiatras, leitos para surtos e atividades de auxílio.
Qual a importância do funcionamento do Hospital Allan Kardec para o tratamento dos pacientes?
A verdade é que atualmente temos cadastrados no serviço de Saúde Mental da cidade 13 mil pessoas que realizam algum tipo de trabalho psiquiátrico e nenhum psiquiatra na rede pública. Imagine se todos os nossos pacientes deixam de receber o tratamento? A desinternação provocaria um verdadeiro retrocesso. Seriam pessoas nas ruas, como aconteceu em Sorocaba.
Como o Hospital mantém suas atividades mesmo com os atrasos de repasses por parte da União?
Além dos repasses da Prefeitura de Franca, estamos atuando com empréstimos bancários durante o mês. Em alguns meses chegamos a ter que pegar empréstimos de até R$ 400 mil, gerando juros de mais ou menos R$ 15 mil. Contamos com as doações voluntárias, além do nosso bazar permanente e o grande bazar que realizamos uma vez por ano, mas isso não é suficiente. Os nossos gastos totais hoje giram em torno de R$ 1,1 milhão, sendo que deste valor cerca de R$ 670 mil é gasto somente com funcionários.
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