Na primeira pergunta de O Livro dos Espíritos, que é o livro básico do Espiritismo e que contém 1019 questões, Allan Kardec, o codificador, interroga os mentores espirituais, indagando: “Que é Deus?”. Colocada como primeira questão, a pergunta de Allan Kardec já evidencia sua preocupação didática, já que demonstra querer começar do começo, isto é, tratando sobre a existência de Deus, sem o que, nada mais teria significado perguntar.
Ao indagar “o que” e não “quem” demonstra a preocupação em não personalizar a Divindade, combatendo, de início, a antropomorfização de Deus, vale dizer, a ideia de que Deus tenha a forma humana. Na sequência à primeira pergunta, Kardec apresenta outras questões ligadas ao tema. Mostra que, segundo um axioma da ciência, não há efeito sem causa. Deduz Kardec, “‘um efeito inteligente, há de ter uma causa inteligente.” E, como o Universo é obra inteligentíssima, necessariamente é produto de uma causa inteligentíssima.
Em sequência aos seus comentários, anota que o homem primitivo, ao observar o mundo ao seu redor e tomar consciência de que tudo o que ali estava não era de sua criação, concluiu (sabiamente, diga-se de passagem!) que alguém havia criado, já que, segundo outro axioma, o nada nada cria. A este alguém deu o nome de Deus. Esta ideia está impregnada em todas as culturas e em todas as épocas da humanidade.
Portanto, não se trata de uma invenção para justificar o injustificável. Nem deuma necessidade para explicar o que não pode ser explicado. Trata-se de um raciocínio lógico, evidente, que ressalta aos olhos. Dizer-se, por exemplo, que o universoé obra do acaso é admitir que o acaso é inteligente, já que tudo está elaborado de forma inteligente.
Seria o mesmo que admitir que, colocando-se material de construção (areia, cimento, ferro, tijolos, telhas, fios, encanamento) em um terreno baldio, com o tempo, surgisse no local, sem que ninguém fizesse algo para tanto, uma construção pronta e acabada. Impossível, diz-nos a razão. A este respeito, o poeta Ferreira Gullar, escreveu um artigo na Folha de São Paulo, edição de 31.07.16, defendendo que Deus é uma invenção humana para solucionargrandes enigmas filosóficos.
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais, diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca
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