O ‘app’ Kelps


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Somos um povo operário, gestor eficiente de crises de todos os tipos, e sempre com um sorriso no rosto. Somos também, face à inexistência de catástrofes naturais, geográficas ou humanas, despreocupados. Só gritamos quando algo nos atinge. Se espirra no próximo, ele que se limpe. 
 
A “raça” que impera e se dá bem aqui não é a do trabalhador. É a do político, esse que pede oportunidade para melhorar a vida do povo e, eleito, só pensa na sua. É “profissão” sem igual, anos sem cobranças regados a fontes inesgotáveis de dinheiro público tomado a fórceps do suor dos eleitores. Pressão única, só a dos partidos, donos dos cargos, aos quais políticos devem obediência cega, irrestrita, incondicional; mas nada, inclusive caráter, que não se possa negociar.
 
Verdade é que votamos por obrigação, e não fiscalizamos. 
 
Eleito, o político se blinda, o povo acha que dá trabalho cobrar, e deixa para lá. Vozes de eleitores fora do tempo das urnas, só através de projetos de iniciativa popular previstos na “Constituição Cidadã” de 1988, que precisa ser reformada. 
 
Desta forma, poucas conquistas são paridas – há os casos da criação do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (2005); carimbo de crime hediondo para chacinas praticadas por “esquadrões da morte” (1994); Ficha Limpa (1999) - não sem tentativas de rechaço da parte dos legisladores. Proposta de endurecimento contra corrupção e impunidade, iniciativa do Ministério Público aclamada por 1,6 milhão de assinaturas, continua tentando sobreviver após ser totalmente desfigurada pela Câmara Federal. 
 
Ontem, incondicionalmente surpreso, tomei conhecimento do Kelps, um novo app, como são chamados aplicativos para celular, tablets, telefones e computadores. O que tem a ver? Este foi criado por um político(!), o deputado estadual pelo Rio Grande do Norte, Kelps Lima, para convidar seus eleitores a decidirem “como é que ele tem que votar” no exercício do cargo! Propõe-se, se for o desejo dos que o elegeram, a modificar suas próprias crenças. 
 
Nunca vi isso. Se Kelps vai ou não cumprir o que está no Compromisso Público que grafou no app é outra coisa. Sei lá se seu partido, o Solidariedade, vai pactuar com ele. Analiso aqui, tão somente, a novidade do caminho proposto. 
 
Convido seus eleitores a colocarem mãos à obra. Penso que tenha que se preocupar com a oposição, que pode utilizar seu app para complicar sua vida e minar sua criação, mas que a novidade é respeitável nesta terra de jeitinhos, enganações e impunidade, é. Torço para dar certo. Se der, quantos “da raça” terão coragem para replicar?
 
Luiz Neto
Jornalista, mestre cerimonialista, editor e tutor de texto, fala e gesto - luizneto@luiznetocomunicacao.com.br 

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