A corrupção está arraigada na nossa cultura. Temos que acabar com ela, revendo as nossas infrações
Há alguns anos, o psiquiatra Daniel Barros publicou artigo com o título “Se gritar ‘pega ladrão’ até eu corro”, livremente inspirado no sucesso de Bezerra da Silva, cujo trecho é o título desta Objetiva. Em seu texto, Barros discutia a questão da corrupção, tentando decifrar se ela vem de cima para baixo ou de baixo para cima.
Na voz corrente nas ruas, é comum ouvir dizer que “político é tudo ladrão”, “político é tudo farinha do mesmo saco”, “político é tudo corrupto”, generalizando, portanto, a classe política e, também, conferindo a ela uma certa “exclusividade” quando o assunto é agir de forma corrupta. Está errado. Como bem concluiu Barros, a corrupção está arraigada na nossa cultura. Ela, portanto, faz os dois caminhos: tanto de cima para baixo, quanto de baixo para cima.
Impossível não associar esse raciocínio ao comportamento de centenas de francanos flagrados, no ano passado, roubando água. Francanos comuns, populares, como se costuma dizer, quando não se está se referindo necessariamente a autoridades. Foram mais de mil casos de furto de água em Franca flagrados pela Sabesp. O roubo foi executado por meio de “gatos”. Esses francanos roubaram da empresa mais de 22 milhões de litros de água. O ano não apontou um fato isolado. A cidade tem um histórico de roubos desse tipo e o volume só vem aumentando ano a ano. E são residências comuns - e não grandes empresas ou entidades públicas - as que respondem pelo maior número de furtos. Os francanos violam hidrômetros, fazem ligações clandestinas, cortam os lacres... enfim, agem das mais diversas maneiras para praticar o roubo. A força policial, inclusive, precisou ser acionada porque houve casos em que o fraudador impediu a fiscalização e, também, para prender criminosos que vendem a adulteração na ligação de água.
O triste é constatar que esse tipo de corrupção é generalizada. Os atos corruptos do dia a dia começam no cidadão comum, também. Infelizmente, é difícil encontrar quem nunca tenha furado fila ou comprado um produto pirata ou, ainda, recebido o seguro desemprego (mesmo estando trabalhando), ou nunca tenha parado em fila dupla ou vaga destinada a idoso... Diante do mar de lama que assola o País, muitos encaram essas corrupções como “pequenas”, mas a corrupção começa assim e vai contaminando tudo o que toca. Quando se abre uma pequena brecha para a corrupção, ela cresce e mostra sua força. Passou da hora de fechar todas as brechas. E não adianta esperar “o exemplo vir de cima”. Comecemos, então, a limpar o país a partir da cozinha de casa.
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