Com um semblante abatido, os braços cruzados à frente do corpo e olhar distante, a estudante de 14 anos, que teve sua história de abuso revelada para Franca na semana passada, ainda tenta entender o que aconteceu e como as coisas mudaram em poucos dias na casa onde mora, na zona Sul da cidade.
Em meio às dúvidas que assolam sua mente, estão como seguir com a vida, sabendo que seu padrasto, mesmo não estando mais em casa, segue em liberdade após estuprá-la; que a mãe chora e está indignada com os abusos cometidos; e que seus irmãos estão revoltados e cobrando justiça e a prisão do agressor, um servente de pedreiro de 47 anos.
No dia 1º de março, a Polícia Militar levou a menor, seus familiares e o servente para o Plantão Policial após uma denúncia de estupro. O caso veio à tona há pouco, mas a rotina de violência e abusos, segundo a menina, acontecia há cinco anos. Como não houve flagrante, o padrasto está solto, fato que indignou a denunciante, uma tia da vítima. “Assim que ela me contou, chamamos a polícia. Ele tentou negar, mas, na delegacia, admitiu o que tinha feito com minha sobrinha. É um absurdo. Destruiu nossa família.”
Aos policiais, a estudante confirmou que recebia “presentes” em troca de sexo. “Quando íamos para o quarto, ele passava a mão em mim e tirava minha roupa. Falava que ia me dar as coisas e comprava salgado, lanche, dava dinheiro e recarga para meu celular. Eu tinha muito medo dele e ia”, contou, de forma tímida, a estudante que tem o costume de andar e brincar descalça na rua de casa, e ainda conserva traços e alguns comportamentos de criança. Segundo a menina, os abusos começaram ainda quando o servente e sua mãe era namorados. Na época, ela tinha 9 anos. A violência se intensificou após o casamento, há um ano.
Sua irmã, uma costureira de 24 anos, disse que já tinha visto o acusado passar a mão na menina e contou o ocorrido à mãe, que não acreditou. “Avisei e ela não me ouviu. Só na delegacia se convenceu disso, que foi quando ele confirmou na frente dos policiais e de todos nós que fez isso com minha irmã. Esse monstro precisa apodrecer na cadeia e pagar pelo que fez.”
Enquanto a vítima narrava os abusos, sua mãe balançava a cabeça negativamente e falava com revolta a respeito de seu agora ex-marido. “Eu quero justiça. Não quero mais saber dele depois do que fez com minha menina. Vamos até o fim da história para que a polícia o prenda logo. Por mim, ele pode morrer na cadeia”, disse.
Abordagem errada provocou indignação
O Portal GCN publicou a história da menina violentada pelo padastro na manhã de quinta-feira. O fez de forma completamente equivocada e infeliz. A notícia nem de longe traduzia a seriedade do que ocorrera e tratou o caso como se fosse uma simples ‘transa’ que tinha terminado em ‘barraco’. Do título escolhido à linguagem do texto, todo o material era, além de equivocado, de péssimo gosto.
A reação dos leitores foi imediata. A dos editores responsáveis, também. O conteúdo foi imediatamente retirado do ar, ainda na mesma manhã de sua publicação. Nenhuma linha sobre o caso havia sido registrada no jornal. Quando o material novamente “subiu” no portal, no final da tarde, estava corrigido, com abordagem apropriada e linguagem idem. No dia seguinte, nas páginas do Comércio, a notícia foi veiculada da mesma forma correta e apropriada. Em nenhum dos textos, seja o errado inicialmente publicado pelo portal ou sua versão corrigida, houve a divulgação de imagens da menor, seu nome, o nome de seus pais, irmãos ou tia, e nem mesmo do padrasto abusador. Ainda assim, o constrangimento foi inevitável.
A diretora-responsável, Joelma Ospedal, postou um vídeo na tarde de quinta-feira, no portal e nas redes sociais, pedindo desculpas pelo erro lamentável. Também reforçou que o Portal GCN tem uma postura inegociável em defesa dos valores humanos. ‘Embora não tenhamos publicado nada no Comércio da Franca, é lamentável termos errado em algo tão sério no portal. Mas já tomamos medidas para que isso não volte a acontecer’, afirmou.
Os profissionais envolvidos, com sólidas carreiras e sem registro prévio de qualquer falha semelhante, foram advertidos. Os procedimentos que levaram a publicação da matéria foram analisados. Todo o conteúdo já publicado pelo portal nos últimos meses foi revisto. Uma nova estrutura de edição do conteúdo online foi imediatamente implantada e já estava em operação na sexta-feira. “Erros assim não voltarão a acontecer”, reforçou Joelma Ospedal.
‘Comércio’ e Portal GCN têm tradição de defesa de crianças e mulheres vítimas
Casos como o registrado em Franca na última semana, envolvendo uma menor e seu padrasto, infelizmente não são raridade. Há décadas o Comércio da Franca e mais recentemente o Portal GCN têm se empenhado em produzir reportagens para tentar reduzir a violência contra as crianças e as mulheres. Mas a batalha ainda está longe de ser vencida. Só em 2016, foram registrados nas páginas do Comércio dezenas de casos de estupro e violência. Alguns chocam pelas circunstâncias. Em um deles, noticiado em agosto, uma menina de 11 anos foi vítima de abuso por parte de seu avô. Em outro, uma garota de 17 anos foi a uma festa na casa daqueles que considerava seus amigos e acabou sofrendo abuso em um banheiro. Em ambos, o jornal foi veemente na defesa da vítima, cobrando providências das autoridades.
Mesmo em episódios envolvendo autoridades ou personalidades conhecidas na cidade, o jornal e o portal não fugiram do dever de noticiar os fatos e cobrar ação da polícia e do Judiciário. Um exemplo foi o caso de abuso sexual praticado por um religioso. Em 2010, foi o Comércio que denunciou os abusos do Padre Dé contra um grupo de meninos da paróquia que ele comandava. O jornal não apenas noticiou a investigação da polícia como foi atrás de mais informações. Até enviou uma equipe de reportagem aos Estados de Minas Gerais e Paraná em busca de mais provas sobre a ação do religioso. Padre Dé acabou condenado e só não foi preso em virtude da sua avançada idade e de seus problemas de saúde. A história destes crimes ganhou repercussão internacional e é citada no filme Spotlight, vencedor do Oscar no ano passado. Padre Dé acabou falecendo no ano passado, antes de ter seu recurso judicial julgado.
Outro caso noticiado pelo Comércio envolveu o ex-presidente da Emdef (Empresa Municipal para Desenvolvimento de Franca), João Marcos Rodrigues. Em 2012, foi o jornal que publicou o caso em que o Ministério Público o denunciava à Justiça.
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