Um desfile que virou procissão


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Escola de samba surpreende com uma celebração aos 300 anos de N. s. Aparecida
A festa da carne pode ser um culto espiritual?
A festa mundana pode se transformar em uma grande oração? A Escola de Samba Unidos da Vila Maria mostrou que sim, ao levar ao Anhembi um enredo sobre Nossa Senhora Aparecida, em homenagem aos 300 anos da descoberta da imagem da santa no rio Paraíba. O que se viu na madrugada desse sábado foi uma grande procissão em veneração à padroeira do Brasil, cuja imagem foi pescada no dia 12 de outubro de 1717. A ideia, porém, não agradou a todos, chocou muitos. A melhor resposta para os incomodados com uma santa no meio da folia veio do jornalista Chico Pinheiro, que apresentava o desfile na Rede Globo. Quando questionado se não era “esquisito” juntar uma festa carnal com fé, não hesitou: “Esquisito é o verbo se fazer carne. Esquisitamente maravilhoso é Deus se fazer homem”.
 
O Carnaval não se originou no Brasil. Ao contrário, é bem mais antigo do que nossa nação. Alguns o atribuem aos gregos. Teria passado também pela Roma antiga e aos poucos foi ganhando o resto da Europa. Chegou em terras tupiniquins trazido por portugueses. No entanto, é difícil imaginar outro país que o comemore de forma tão intensa, como acontece entre nós. Para alguns historiadores, sua origem está ligada à implantação da Semana Santa pela Igreja Católica. Como todos sabiam que iriam ficar um longo tempo longe dos prazeres da mesa e da carne, a ideia era comemorar intensamente os últimos dias antes das privações impostas pela Quaresma. Nesse sentido, o período do Carnaval ficou marcado pelo que se entendia como “adeus à carne”, ou do latim “carne vale”, expressão que acabou dando origem ao termo “carnaval”. Pode-se dizer, portanto, que o deleite, os prazeres mundanos e também o exagero já nasceram com a própria festa, o que a tornou muito bem recebida em nosso país, uma terra originariamente caracterizada por sacrifícios e precariedades.
 
Intrinsecamente ligados na origem, a relação entre igreja e Carnaval, porém, nem sempre foi tão harmônica quanto no caso da Vila Maria, que desfilou sob as bênçãos da Arquidiocese de São Paulo. No Rio, o Cristo Redentor já foi proibido de desfilar pela mesma Igreja Católica. Em São Paulo, a homenagem a Aparecida tinha apenas a condição de não levar mulheres seminuas à avenida. E o que se viu foi uma bela apresentação carnavalesca sem nenhuma conotação sexual ou apelo sensual, comuns ao Carnaval.  
 
Em tempos de papa Francisco, que sugere que é melhor ser ateu que um católico hipócrita, o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, doutrina grupos que consideraram o desfile uma “ofensa à honra da mãe de Deus”. “Será que Maria não gostaria de chegar lá, onde mais se faz necessária a sua presença? Não foi para os pecadores que Jesus veio ao mundo?”
 

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