Uma casa de cimento batido decorada com poucos móveis pálidos. A tinta amarela da parede vivenciava a tentativa frustrada de ofuscar a cal que insistia em aparecer nas lacunas do banheiro. As janelas emolduravam as montanhas ocupadas por pescadores de chapéu que eram vistos de longe como pequenos borrões que se mexiam cuidadosamente. E durante a noite o pontilhado negro no céu presenteava nossos rostos com uma brisa gelada e dava aos gerânios a doce saliva do sereno.
Nas manhãs, a casa era inundada com o cheiro do café fresco, moído pelas engenhocas criadas no quintal. A banana madura da fruteira de plástico colorido e barato fazia parte da decoração tímida e atraía formigas agitadas, no fim da tarde a fruta tornava-se virado junto da crosta dura da farinha de milho, e o abacate que o vô tirava do alto do pé, a gente comia feito bobo com açúcar cristal.
O chão de terra vermelha sujava o pé, e os montes de areia eram paraísos cheios de latas de achocolatado e vasilhames de plástico que eu usava para fabricar fantasiosos bolos de barro; em nosso quintal também havia gatos, cachorros, e galinhas comedoras de escorpiões valentes. Ainda guardo a lembrança da cadeira de plástico azul que meu pai colocava no meio do caminho, e pela manhã ele estava lá com um cigarro apoiado entre o dedo médio e o indicador, enquanto na outra mão equilibrava um livro grosso.
Eu e meu irmão crescemos insuportavelmente felizes ali, e meus pais eram constantemente julgados por quem tinha grandes pretensões geradas pelas potências urbanas. Alguns diziam que era provável que eu nunca cursaria uma faculdade de mérito e que os dedos na terra e o sotaque marcado pelo o arrastar da letra “r” me afunilariam. Minha mãe, então, comprou um carro e fomos morar na cidade; às vezes eu não resistia à tentação de colocar os pés no chão no meio das gentes e minha mãe começou a dizer que aquilo deveria parar.
Coloquei meus sapatos e uma mochila nas costas, fui morar sozinha em uma cidade maior ainda, eu uma menina que de tão tímida tinha medo até mesmo de atravessar a rua mesmo com o semáforo fechado. As grandes construções eram o reflexo das pretensões da modernidade inversamente proporcional ao coração do homem moderno, e eu convicta da posse de grande valentia me sentia miúda e inofensiva feito uma abelha mombucão.
Conquistei muito nestes anos, fiz coisas da cidade e permaneci com o coração da roça, fiz coisas na roça com as convicções da cidade. Hoje aos 25, desconheço qual cenário o destino construirá, quais serão os móveis, a pintura e o cheiro que bate quando há janela aberta. Neste aniversário de 25 eu poderia idealizar várias coisas como os alpinistas que nunca param de escalar, apesar do gelo, da dor e do sol. E eu quero voltar para o mato como uma mariposa que deseja retornar ao casulo, mas como voltar ao casulo após conhecer o universo de mariposa?
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