Eram 10h30 da manhã da última segunda-feira, quando o prefeito Gilson de Souza (DEM), acompanhado por um de seus principais conselheiros, o ex-secretário de Administração Luiz Pinheiro Sampaio, chegou à casa do secretário de Finanças, Sebastião Ananias. A visita era esperada para o sábado.
Desde o dia 9, Ananias está em casa se recuperando de duas cirurgias de catarata e deveria voltar ao governo no próximo dia 1º de março. Seu afastamento agravou um distanciamento que já vinha se desenhando.
A visita o pegou de surpresa. O assunto, os interlocutores vinham evitando há semanas: o desconforto entre ele e os mais próximos de Gilson na Prefeitura. A relação dava sinais claros de desgaste e era assunto nas rodas políticas da cidade e nos corredores da Prefeitura.
Ananias foi um dos principais apoiadores da campanha de Gilson de Souza. Seu apoio declarado em vídeo nas redes sociais, no dia 20 de outubro, foi um dos fatores que contribuíram para a virada do ex-deputado estadual no 2º turno.
Antes mesmo da vitória confirmada, Gilson já havia anunciado Ananias seu homem forte, que assumiria não apenas as finanças da Prefeitura mas também a gestão. “Ele fará a gestão e eu ficarei com a parte política”, dizia Gilson. E foram assim os primeiros dias do governo.
O começo
Ananias teve papel fundamental na composição da administração. Foi dele a indicação e a palavra final na escolha de cinco dos nove secretários. Muitos anunciados e confirmados quando Gilson ainda curtia uma viagem para o Nordeste.
Coube a Ananias também dar os primeiros direcionamentos do novo governo. Foi ele quem convocou a primeira reunião do secretariado, distribuiu pastas com dados a cada um deles e usou a palavra a maior parte do tempo. Gilson praticamente assistiu a tudo calado e não parecia desconfortável. Nas constantes viagens do prefeito, era Ananias que assumia o leme.
Mas aos poucos, as insatisfações com o jeito às vezes rude e autoritário de Ananias começaram a incomodar. Os primeiros a demonstrarem descontentamento foram os filhos de Gilson. Gilsinho, o mais velho, e Lincoln, o mais novo, estavam constantemente acompanhando o pai no gabinete. Participavam de reuniões e encontros. Ananias viu na presença deles uma possibilidade de problemas. “Eu os alertei a respeito de que poderia ser um filé para o Ministério Público, que poderia acusar Gilson e eles de tráfico de influência”, contou Ananias aos mais chegados. Sempre que ia ao gabinete, Ananias os repreendia. “Podem acabar prejudicando o Gilson.” Não foi ouvido.
Com o avançar dos dias, novos conflitos. O primeiro deles foi a reforma administrativa pretendida por Ananias. Queria aproveitar a necessidade de regulamentar os cargos comissionados para cortar funções e acabar com benefícios dos servidores que são alvos de ações judiciais. Gilson e o gabinete não queriam o desgaste. A reforma - até então tratada como prioridade - acabou esquecida.
As nomeações para cargos comissionados de amigos, parentes de amigos e membros do DEM e de partidos aliados incomodaram Ananias, que temia a acusação de nepotismo cruzado. Ele chegou a conversar com Gilson, mas não foi ouvido.
Mais divergências
A situação piorou no final de janeiro, quando para aumentar a arrecadação, Ananias propôs a revogação de uma lei que destina aos procuradores 10% de toda a dívida ativa paga em juízo. Ananias queria cortar o benefício, o que deixou a Procuradoria em polvorosa.
Na mesma época, no gabinete se discutia a distribuição de verbas para o Carnaval. Ananias queria que as escolas de samba cumprissem a determinação da Lei Orgânica do Município, que exige a declaração de utilidade pública para a concessão de repasses. As escolas não tinham o documento. Uma ala do governo queria que o repasse foi feito mesmo assim.
Segundo Ananias, o procurador do município, Eduardo Campanaro, teria alterado o projeto que seria encaminhado à Câmara, incluindo nele um artigo dispensando a exigência da declaração. Na Câmara, o projeto foi alvo de duras críticas. Ananias se irritou. “Apanhei muito por algo que eu nem tinha conhecimento”, desabafou.
O caso acabou agravando ainda mais o clima, que ficaria insustentável na primeira semana de fevereiro, quando o projeto dos cargos comissionados foi protocolado na Câmara. “Mais uma vez, o procurador me atropelou. Era um anteprojeto que deveria ser entregue apenas aos vereadores para estudo. Mas acabou protocolado como projeto final. Foi mais um desgaste.”
O afastamento
Para tentar amenizar a situação, Ananias adiantou suas cirurgias e pediu afastamento em 9 de fevereiro, o que foi visto pela administração como um alívio. Mas, na semana passada, com a saída de Wanderley Cintra da presidência da Emdef (Empresa Municipal para o Desenvolvimento de Franca), Ananias voltou a ser assunto. Ele foi procurado pelo conselheiro do prefeito, Ulisses Minicucci.
“Eu achei que seria uma conversa pacificadora. Mas o tom não era esse. O dr. Ulisses me disse que era o Gilson quem mandava, que era ele que era o prefeito e não eu. Me deu praticamente uma aula sobre como as coisas funcionavam no governo”, contou Ananias, que teria respondido que não faria nada que fugisse de seus princípios.
Ananias, então, pediu para conversar com o prefeito. A conversa ficou agendada para as 18h30 do último sábado, mas Gilson não compareceu nem ligou para avisar. Na segunda pela manhã, veio a notícia. Gilson teria dito a Ananias que não havia como ele continuar no governo. Primeiro, o prefeito atribuiu a decisão a divergências na condução de questões-chave. Depois, teria confessado: “Foram pressões do gabinete. Não há clima para você continuar”. Ficou acertado entre eles que o anúncio da demissão seria feito na sexta-feira pelo gabinete.
Mas Ananias, receoso do que seria divulgado por aqueles que culpa por sua demissão, resolveu se adiantar e, ontem, divulgou a carta na qual explica parte das razões de sua saída. Antes de tornar a carta pública, a encaminhou ao prefeito e a seus conselheiros. Não teve resposta.
Gilson viajou para Brasília. No fim da tarde, retornou as ligações do Comércio e, diferente do costume, foi direto. “Não vou falar sobre o assunto.” Não quis adiantar se já tem o nome do substituto e não comentou as afirmações de Ananias. Disse que só deve falar a respeito em uma coletiva nesta quinta-feira.
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