O tio João tocava violão, o pai tocava pandeiro. Tocar é força de expressão. Os coevos do pai e do tio garantem que não havia melodia, só um barulhão infernal. Para os casais, todavia, os ruídos eram acordes, o baile estava sempre animado. E, enquanto a poeira subia até a lona da tolda, a alegria pisava o escuro do sábado, pisava o vestido dourado da madrugada do domingo.
Eu insistia com o pai, queria tocar cavaquinho. Não havia cavaquinho, explicava. Eu queria cantar com eles, sabia pedaços da Mula Preta. a resposta do pai era invariável.
— Sua voz não presta.
Amuado, escondia do serviço, ficava perto do monjolo, repetindo estrofes de canções, escutando seu tum... tum..., achando que venceria a resistência do homem.
— Sua voz não presta.
O tempo mostrou que o pai era sábio, passou.
Ficaram, porém, o gosto por decorar textos alheios, a peia que me prende às raízes de uma cultura que insiste em mim, fazendo-me, não raro, alvo de chacotas.
Ficou mais.
Sempre que estou só, ouço o tum... tum.., a incontestável música clássica do monjolo e da água e me vem então uma vontade desesperadora de cantar.
Não canto.
— Sua voz não presta.
Sujo o papel com pedaços da meninice.
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