Ele era um personagem conhecido nas delegacias e nas cenas de reconstituição de crimes violentos. Por conta da profissão incomum, foi tema de reportagens em jornais e TVs. Não se importava em posar sorridente com uma arma no peito ou dentro de um caixão. Poucos sabiam o seu nome. Os amigos mais próximos o chamavam de “morto”. Ele gostava, dava risadas. Afinal de contas, havia morrido de maneira fictícia quase cem vezes. Agora, não foi encenação. O homem que interpretou vítimas de homicídio por duas décadas morreu de verdade.
Vítor Antônio Bijos, 70, foi encontrado morto na noite de domingo. A causa é desconhecida. Ele morava sozinho em uma casa na rua Minas Gerais e não havia sido visto recentemente. O seu sumiço, somado ao cheiro forte que exalava da residência, fez com que os vizinhos acionassem a polícia e bombeiros.
Foi preciso cortar o cadeado do portão. Encontraram o corpo caído na saída do quarto em adiantado estado de decomposição. Havia morrido há alguns dias. Vizinhos disseram que ele estava com anemia e demonstrava fraqueza.
Formado em arquitetura, Vítor gostava mesmo era de atuar. Por quase duas décadas, foi um colaborador da Polícia Civil e intérprete oficial do papel de vítima de crimes violentos ocorridos em Franca e região. “Lamentamos a morte do Vítor, principalmente, da maneira em que ele foi encontrado. Ele sempre foi muito solícito e participou de mais de 80 reconstituições de crimes de homicídios. Inclusive, ganhou dos policiais o apelido de ‘morto’. Todos o chamavam assim, em tom de brincadeira. O Vítor vinha tomar café na delegacia quase todos os dias e perguntava se tinha alguma reconstituição a ser feita”, disse o delegado Márcio Garcia Murari, chefe da DIG (Delegacia de Investigações Gerais).
Em julho de 2006, Vítor teve a sua história narrada nas páginas do Comércio da Franca. Ele contou à jornalista Nelise Luques como era se colocar no lugar de pessoas mortas com tiros, facadas, pauladas e machadadas. Disse que, ao entrar em cena, a adrenalina subia a mil quando os autores do crime se aproximavam. “Não tenho receio, mas a gente nunca sabe o que passa na cabeça do bandido na hora que ele revive o momento do crime. Procuro ficar tranquilo e concentrado. Se eu vacilar, posso levar uma ‘revolvada’ na cabeça, uma paulada. Também confio na equipe de policiais que está perto.”
Vítor não recebia cachês. Disse que sua missão era ajudar as autoridades a esclarecer a autoria de crimes violentos. “Uma correção severa é um conforto a mais para os familiares das vítimas. Farei isso enquanto eu estiver vivo e a Justiça precisar.”
O corpo de Vítor foi sepultado ontem no cemitério Santo Agostinho.
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