De família italiana, o farmacêutico Anésio Walter Foroni fincou raízes em Franca e fez de uma casa do bairro da Estação seu verdadeiro lar. Aqui, se casou, constituiu família e montou uma farmácia que o tornaria famoso em toda a cidade. “Naquela época, em que existiam poucos médicos em Franca, o farmacêutico era uma figura importante. Era, muitas vezes, a única alternativa acessível em socorro da vida”, disse sua filha Moralina Foroni Casas.
Foi pensando em uma forma de valorizar a figura do pai e sua história que, muitas vezes, pode confundir-se com a de Franca, que a médica resolveu escrever um livro para homenagear sua trajetória e contar sua história de vida. Para isso, Moralina contou com a ajuda da historiadora Lucileida Mara de Castro e da professora Regina Helena Bastianini. O processo de seleção das histórias e fotografias para o livro durou dois anos e terminou no final do ano passado, quando Meu pai: o farmacêutico Anésio Foroni, ficou pronto. A obra será comercializado em breve em livrarias da cidade, como a Saraiva.
Morto aos 65 anos, vítima de um câncer, Anésio deixou, segundo sua própria filha, lições de honestidade, trabalho e sensibilidade, tanto para sua família, quanto para aqueles que iam à sua farmácia. Quem, do bairro da Estação, não se lembra que, para melhorar de uma doença, bastava ir à rua Voluntários da Franca e “sarar com o ‘seo’ Anésio”? “Ele trabalhava muito, mas arranjava tempo para ser meu pai. Era presente. Por tudo isso, papai bastava para que eu me sentisse segura”, escreveu Moralina, em um trecho do livro, para definir Anésio: mais que um profissional, um pai.
Franca conheceu o Anésio Foroni farmacêutico e empresário. Quem foi Anésio Foroni no âmbito pessoal?
Como pai, era muito amoroso, participativo, generoso, se fazia ser respeitado e também consolador. Como marido, muito companheiro e sempre protegia minha mãe. Como irmão, acredito que ele mimava as irmãs mulheres, pois tinha muito amor pelas tias Elvira, Hilda e Hélia. Com Leonildo, outro irmão, mantinha uma convivência cordial. Tinham rixas, mas jamais os vi brigados. Meu tio Geraldo Foroni morreu jovem, aos 47 anos, e foi um exímio professor de artes na escola Industrial, motivo de orgulho para meu pai. Ele também era alguém querido, com vários amigos; desde os mais humildes aos mais abonados.
Por que decidiu publicar este livro?
Sempre que encontrava amigos, conhecidos e vizinhos do bairro da Estação, ouvia ‘causos’ sobre meu pai. Falavam-me da admiração que tinham por ele, mencionando sua competência, alegria, atenção e afeto, principalmente com as crianças. Nestas conversas, alguns conhecidos, amigos e familiares, começaram a me questionar sobre registrar a vida do Anésio em livro. Aliei isso ao desejo de registrar a história de meu querido e amado pai, pensando em meus filhos, sobrinhos e amigos, além de levá-la para aqueles que não tiveram o privilégio de conhecê-lo.
Como chegou às responsáveis pela escrita e quem participou desta obra?
Como guardei algumas histórias, mas nunca fui escritora, pensei ‘por onde começar? Onde buscar mais informações?’. Estes eram os meus dilemas, até que soube que Gutemberg Giolo, meu conhecido, e que havia trabalhado com o meu pai, estava escrevendo a história da família dele, assessorado pela historiadora Lucileida Mara de Castro e pela professora Regina Helena Bastianini. Assim, há cerca de dois anos, nós três formamos uma equipe e começamos a trabalhar. A partir de então, a vida de papai virou uma história linda e sincera, como ele gostava. Sou agradecida às duas colaboradoras, agora amigas, que tornaram isso possível, indo além do que até eu mesma sabia. O prefácio muito bem elaborado, foi carinhosamente escrito pelo professor Luiz Cruz, conhecido e amigo de papai da Estação.
Em todos os trechos da obra, é possível ver a preocupação de Anésio com a família. E não apenas nos momentos de saúde. Quais características você mais admirava nele?
Uma de suas melhores virtudes era a de agregar e conciliar as pessoas. Parentes, conhecidos, jovens, crianças e idosos. Ou seja, trazia para perto de si todos os bons e os que não eram bons ele tentava melhorar também. Alguns vingavam nesta tentativa. Ele fazia isso e cuidava de nós todos da família também.
Como conseguiu escolher as histórias para retratar no livro, em meio a toda uma vida?
As que eu lembrava, fui contando, mas me surpreendi com minha prima Cleusa Barbosa de Castro e Eda Mirtez Foroni de Araújo, que lembraram de muitas histórias e episódios engraçados e pitorescos de meu pai. Também contei com a colaboração de todos os entrevistados, a quem sou muito grata.
O que o ‘seo Anésio’ mais gostava na cidade?
Meu pai se apaixonou pela minha mãe, Terezinha, e também por Franca, pois aqui fincou seu pé e construiu sua vida. Adorava o clima e alguns lugares. Tinha predileção pela praça da Catedral, a livraria Martins, a AEC, o Clube de Campo, o Magazine Luiza e vários restaurantes. Sempre nos levava para visitar a paineira, localizada na rodovia Cândido Portinari, entre Franca a Cristais, e a fazenda Cotia.
Seu pai morreu após uma luta contra o câncer. Qual mensagem ele tentou transmitir para a família durante essa batalha? Como ele lidou com isso?
Penso que meu pai não queria demonstrar fraqueza e que seu fim estava próximo. Ele lidou de uma maneira diferente. Sabia que estava com câncer de próstata, pois era estudado e preparado para saber tudo sobre o mal que o acometia.
Qual legado e lição seu pai deixou para você e seus filhos?
Para mim foi primeiramente de confiança, honestidade e de muito trabalho, pois eu o via levantar muito cedo, abrir a farmácia, manipular medicamentos, examinar as pessoas, atender muitas crianças, fazer procedimentos que muitos farmacêuticos não conheciam, como ventosas e extração de corpos estranhos. Para meus filhos, ele os gratificou com muito amor, ensinando respeito e trabalho. Um exemplo é que, quando meu pai colocava o avental branco, esquecia os problemas de casa e se transformava no exímio farmacêutico que tantas enfermidades ajudou a curar. Não reclamava e nem lamentava quando tinha que abrir a farmácia de madrugada, o que ocorreu várias vezes. Ele doou sua vida de farmacêutico para a cidade. Trouxe alegria, curou muitas enfermidades, trazendo sempre uma palavra de conforto, levantando o astral de todos os que o procuravam. Sempre dava alento a todos que o cercavam.
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